O iene disparou hoje contra o dólar no início do pregão asiático, saltando de 160,20 para 157,80 por dólar em menos de 40 minutos. Operadores descreveram um "tsunami de ordens de venda" da moeda norte-americana, com um volume estimado de US$ 15 bilhões apenas na primeira onda. A suspeita imediata de intervenção das autoridades japonesas foi quase instantânea, mas a dimensão das operações levou o mercado a concluir que os Estados Unidos também participaram.
Coordenação em dois níveis
A última vez que Tóquio e Washington agiram juntos para comprar ienes foi em 1998, no auge da crise asiática. Naquele episódio, a atuação conjunta durou dois dias e envolveu um montante estimado em US$ 40 bilhões. Agora, fontes ligadas aos bancos centrais afirmam que a ação desta sexta-feira foi dividida em três janelas de negociação, com ordens de compra de ienes originadas de bancos em Tóquio e também em Nova York.
"Diferentemente de intervenções anteriores, os fluxos apareceram simultaneamente nos dois mercados", disse um operador sênior de um banco europeu em Tóquio. "Isso indica que houve coordenação prévia entre o Ministério das Finanças japonês e o Tesouro americano."
O governo japonês tem histórico de agir sozinho, principalmente quando a moeda passa de 150 ienes por dólar. O nível de 160 era visto como uma linha vermelha. O fato de o Fed ter sinalizado, na semana passada, que poderia tolerar um aperto das condições financeiras, criou espaço para uma ação conjunta.
Volumes bilionários e liquidação recorde
Dados preliminares da plataforma CLS mostram que o volume total negociado no par USD/JPY na manhã de hoje chegou a US$ 35 bilhões, quase o dobro da média diária das últimas semanas. A estimativa é que o Banco do Japão tenha comprado cerca de US$ 8 bilhões em ienes, enquanto o Fed pode ter contribuído com US$ 5 bilhões. Os números não foram confirmados oficialmente.
O movimento derrubou o índice DXY, que mede o dólar contra uma cesta de moedas, em 1,2%. O euro também subiu 0,8% frente à moeda americana, embora os efeitos tenham sido mais concentrados no mercado asiático.
Impacto na inflação e no crescimento
Para o economista-chefe do Mitsubishi UFJ Financial Group, a intervenção deve ajudar a conter a inflação importada, mas não resolve o problema estrutural do Japão. "A ação cambial dá tempo, mas a política monetária precisa continuar normalizando", afirmou. Ele projeta que o Banco do Japão deve elevar a taxa de juros em dezembro, levando a moeda a se estabilizar na casa de 155 ienes por dólar.
A decisão de envolver os EUA pode reduzir as críticas de que Tóquio está manipulando a moeda para ganhar competitividade comercial. O Tesouro americano, que tradicionalmente inclui o Japão na lista de vigilância de práticas cambiais, deverá enfrentar menos pressão política se ficar claro que a ação foi bilateral.
Perspectiva para os próximos dias
O mercado agora está atento a qualquer declaração do presidente da Câmara de Câmbio do Japão, que geralmente anuncia se houve intervenção. Nenhum comunicado foi emitido até o fechamento desta edição. De acordo com o jornal japonês Nikkei, o Ministério das Finanças está preparado para novas operações caso o dólar volte a subir acima de 158 ienes.
Analistas do Goldman Sachs escreveram em nota que "a coordenação com o Fed amplifica o efeito e reduz a probabilidade de uma nova atuação no curto prazo". Já o Morgan Stanley alertou que "o mercado pode testar a determinação das autoridades nas próximas semanas, especialmente se os dados de inflação americana vierem fortes".
Este episódio marca a primeira grande intervenção cambial coordenada entre as duas maiores economias do mundo em quase três décadas. Resta saber se será suficiente para mudar a tendência de depreciação do iene, que ainda acumula queda de 12% no ano.



