O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) registrou alta de 0,5% em abril na comparação com março, descontada a sazonalidade. O resultado veio ligeiramente abaixo da expectativa do mercado, que projetava avanço de 0,6%, mas reafirma a resiliência da economia brasileira em um ambiente de juros restritivos. Na comparação com abril de 2025, o indicador subiu 0,9%.
Com o desempenho de abril, o IBC-Br acumula expansão de 1,6% nos últimos 12 meses e de 1,3% no ano. A expansão foi puxada pela Indústria, que cresceu 0,4%, e pelo setor de Serviços, com alta de 0,3%. O setor agropecuário ficou estável (0%) e o IBC-Br Ex-agro avançou 0,4%.
Terceiro avanço em quatro meses
Rafael Perez, economista da Suno Research, apontou que o resultado, embora abaixo das expectativas, representa a terceira alta dos últimos quatro meses, acumulando expansão de 1,6% em 12 meses. “Os dados de atividade de abril reforçam nossa leitura de que a economia segue resiliente neste início de segundo trimestre”, afirma.
Com o avanço, o indicador acaba “renovando o nível mais elevado já registrado em sua série histórica”, afirma Yihao Lin, economista da Genial Investimentos. Rodolfo Margato e Alexandre Maluf, da XP, apontam que o avanço no IBC-Br foi generalizado, ainda que moderado.
Na análise por setores, Perez atribui o desempenho em serviços à retomada do consumo das famílias, que tem sido o principal vetor de sustentação da demanda doméstica neste ano. Já na indústria, ele destaca o setor extrativo, especialmente as atividades ligadas à produção de petróleo e gás, impulsionadas pela guerra, que vêm compensando a fraqueza observada na indústria de transformação. Na agropecuária, Perez sinaliza que a acomodação já era esperada, tendo em vista que o crescimento da produção costuma ficar concentrado nos primeiros meses do ano.
Para Matheus Pizzani, economista do PicPay, o dado vem alinhado às pesquisas mensais dos setores feitas pelo IBGE, como a Pesquisa Industrial Mensal (PIM), Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) e Pesquisa Mensal de Serviços (PMS). “Os resultados apontaram para um crescimento baseado na melhora da demanda externa por commodities energéticas, com foco no petróleo, e da dinamização de segmentos específicos voltados para este tipo de produção, como a indústria extrativa e parte do setor de serviços”, analisa Pizzani.
Segundo o economista, segmentos mais expostos aos ciclos econômicos, como a indústria de bens duráveis e os segmentos do comércio voltados à intermediação destes mesmos itens, apresentaram desempenho avaliado como “alinhado ao atual ciclo da economia”, com juros restritivos. “O dado do IBC-Br divulgado hoje é mais um na esteira de resultados que apontam para um processo de desaceleração gradual da atividade econômica, que havia iniciado o ano apresentando resultados excepcionalmente fortes em seu primeiro bimestre”, diz.
Revisões alteram a fotografia do trimestre
A divulgação do Banco Central trouxe revisões importantes na série histórica, mostrando que a economia operou com menor tração no início do ano do que o inicialmente medido. A retração de março, antes divulgada como 0,67%, foi ajustada para uma queda mais suave, em torno de 0,18% a 0,2%.
Segundo Rafael Rondinelli, economista da MAG Investimentos, ajustes em janeiro (para +0,8%) e fevereiro (para +0,4%) reforçam a percepção de que “o ponto de partida da atividade econômica no início do ano foi marginalmente mais forte”. Pablo Spyer, conselheiro da Associação Nacional das Corretoras de Valores (Ancord), também destaca que essas revisões suavizam a percepção de desaceleração abrupta.
Consumo alto versus juros restritivos
O dado aponta, mais uma vez, que a economia vive uma disputa de forças opostas. De um lado, a atividade é sustentada pelo mercado de trabalho aquecido e por pesados estímulos governamentais. Rodolfo Margato e Alexandre Maluf, economistas da XP, avaliam que a renda real mantém trajetória de crescimento devido ao aumento das transferências fiscais, estimando que as medidas de estímulo adicionem até 150 pontos-base ao PIB em 2026.
Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica do Goldman Sachs, corrobora o cenário de demanda forte, destacando que a renda real bruta disponível das famílias acelerou para um ritmo de 6,3% em relação ao ano anterior em março-abril, um dado “forte”, segundo Ramos.
Por outro lado, o aperto monetário freia lentamente o ímpeto. Lin, da Genial Investimentos, aponta o “descasamento entre as políticas monetária e fiscal” como o principal fator desse desempenho paradoxal. Matheus Pizzani, economista do PicPay, alerta ainda para os impactos de choques externos: a eclosão do conflito no Oriente Médio e a alta do petróleo devem “corroer parcela importante da renda das famílias” por via da inflação.
Gabriel Foglieni, parceiro e gestor de investimentos da Eleva Invest, afirma que, com a inflação ainda pressionada, o Banco Central deve manter os juros em patamar elevado. “E são justamente esses juros altos que continuam segurando o ritmo da atividade. Um ciclo que ainda não encontrou seu ponto de virada”, afirma.
Projeções e Selic
Com a inflação pressionada, o mercado não vê espaço para cortes agressivos na Selic. Pablo Spyer avalia que o Copom deve promover um corte de 0,25 ponto percentual, levando a taxa para 14,25%, “mas com um discurso bastante cauteloso”, deixando a porta aberta para uma pausa devido às incertezas globais. A Genial Investimentos avalia que, devido ao cenário adverso, a diretoria “deveria interromper o ciclo nesta reunião” após o corte, mantendo a Selic em 14,25% até o fim do ano.
Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset, aponta que, para o Banco Central, esse movimento pode ser visto como um sinal positivo “na medida em que reduz parte das pressões de demanda”. No entanto, o dado dificilmente será suficiente, isoladamente, para alterar de forma relevante a condução da política monetária.
Gustavo Assis, CEO da Asset, avalia que “em tese”, isso abre espaço para um Copom “mais confortável” no corte de juros, já que um crescimento mais moderado ajuda na convergência da inflação para a meta.
Para o fechamento do ano, as perspectivas de crescimento permanecem sólidas, apesar da desaceleração projetada para o segundo semestre. O Goldman Sachs aponta alta de 0,6% no PIB do segundo trimestre e crescimento de 1,8% em 2026. A Suno Research projeta avanço de 0,6% no segundo trimestre e de 2,0% no ano. A XP Investimentos estima alta de 0,5% no 2º trimestre e 2,0% em 2026, mesmos indicadores da Genial Investimentos. Para maio, a XP já projeta uma estimativa preliminar de avanço de 0,6% no IBC-Br na comparação mensal. O PicPay está mais pessimista, estimando crescimento de 0,4% no 2º trimestre e 1,7% no consolidado de 2026.



