Um mês após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar seu tarifaço e a escalada retaliatória com a China, o Brasil começa a sentir efeitos positivos em setores como calçados e soja. Importadores americanos ampliaram a compra de calçados brasileiros e sondam empresários para substituir produtos chineses, enquanto a China aumenta a aquisição de soja do Brasil.
No setor de calçados, a Usaflex, que produz entre 25 mil e 32 mil pares por dia no Rio Grande do Sul, relata que empresas americanas buscam novos parceiros devido às dificuldades com o fornecimento chinês, altamente taxado. O CEO Sergio Bocayuva afirma que redes varejistas dos EUA querem comprar calçados brasileiros para estampar suas próprias marcas.
Na soja, os embarques para a China cresceram 34% de janeiro a março, totalizando US$ 6,7 bilhões. O presidente da Abiove, André Nassar, destaca que a China está demandando mais soja em grão. Daniel Furlan Amaral, diretor da Abiove, ressalta a importância de políticas públicas para fortalecer a industrialização da soja no Brasil, preservando margens no mercado interno.
O setor alimentício também se beneficia. A Bella Giornata, da Della Foods, fechou o envio de cinco contêineres de achocolatados e bebidas em pó para os EUA, avaliados em R$ 2 milhões. A CEO Pamela Manfrin registrou aumento de 50% nas demandas no primeiro trimestre de 2025 ante 2024, com projeção de crescimento adicional de 20% no segundo trimestre.
A Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel) vê potencial para ampliar exportações, já que os EUA são o principal destino dos móveis brasileiros, com 27,6% das exportações em 2024. Antes do tarifaço, estimava-se um crescimento adicional de 47,9% nos próximos anos.
O ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral alerta que a guerra comercial gera instabilidade nos fluxos de investimento globais, pois as empresas levam anos para fazer estudos e modelagens que podem se tornar obsoletas. Apesar dos efeitos positivos, há preocupações com a invasão de produtos asiáticos no mercado brasileiro, especialmente calçados e têxteis, devido ao dumping chinês.



