Uma pesquisa da XP Investimentos com gestoras multimercados revela uma reviravolta nas apostas para juros, dólar e Bolsa às vésperas da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa Selic, prevista para esta quarta-feira (17). Em abril, 100% dos gestores mantinham posições vendidas em dólar, o que foi considerado o maior consenso já registrado na série histórica. Agora, em junho, 80% dos fundos estão comprados na moeda americana, enquanto apenas 20% seguem apostando em sua queda.
Mudança de cenário no câmbio
O levantamento foi realizado entre 8 e 12 de junho com 25 gestoras, antes do anúncio do acordo de paz entre Estados Unidos e Irã. Segundo os analistas Clara Sodré, Luiz Felippo, Pedro Frota e José Pini, o intervalo entre as reuniões do Copom evidencia como as mudanças no fluxo de capital global alteram rapidamente as estratégias dos multimercados.
Em abril, a economia levava as gestoras a aumentar as apostas no chamado kit Brasil, com recomendações em bolsa brasileira, valorização do real e calibragem de juros. Em junho, o ambiente se inverteu. O câmbio, que era um dos principais vetores de otimismo com o Brasil, passou a operar como instrumento de proteção financeira.
As posições compradas em real recuaram drasticamente, de 91% para 31%, enquanto as vendidas saltaram de 9% para 69%. Para os analistas, essa migração não representa um teste de convicção, mas o reconhecimento de uma possível mudança de regime de fluxo.
Contexto global e doméstico
A mudança ocorre em meio à concentração de investidores globais no financiamento do setor de Inteligência Artificial, que impulsionou as bolsas asiáticas, enquanto o mercado brasileiro perdeu espaço para outros emergentes. No cenário doméstico, a alta do petróleo reavivou o temor da inflação, mantendo expectativas de juros elevados em um ano eleitoral.
Aposta majoritária em corte de juros
Em relação aos juros, 84% das gestoras apostam em uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic, para 14,25%, enquanto 16% esperam manutenção em 14,5%. No entanto, a convicção sobre a extensão do ciclo de afrouxamento monetário diminuiu. Para o longo prazo, as expectativas para a Selic ao final de 2026 subiram para 14,1%, impulsionadas por riscos inflacionários e pela dinâmica global de energia e commodities. A inflação projetada para 2026 também subiu, fixando-se em 5,2%.
No cenário internacional, 100% dos gestores aguardam a manutenção dos juros nos Estados Unidos.
Bolsa reflete cautela
O apetite pelo mercado acionário local perdeu força. As posições compradas na bolsa brasileira recuaram de 71% em abril para 60% em junho, enquanto as vendidas em ações nacionais dobraram, passando de 10% para 20% no mesmo período. Esse recuo reflete uma leitura mais cautelosa sobre a economia nacional.
A parcela de gestores com visão negativa sobre o cenário doméstico dobrou, de 19% para 38%, enquanto a perspectiva positiva estacionou em 24%. Contudo, os especialistas ressaltam que o reposicionamento não traduz um pessimismo estrutural definitivo. O aumento de posições neutras em carteira sugere uma tática de preservação de capital até que haja maior clareza sobre o controle da inflação, a trajetória da política monetária e os desdobramentos do quadro eleitoral.



