Copa do Mundo nos EUA supera expectativas e mostra força global
Copa do Mundo nos EUA supera expectativas e mostra força global

Quando foi anunciado que os Estados Unidos sediariam a Copa do Mundo ao lado de Canadá e México, criou-se a expectativa de que o evento não seria tão popular por lá, afinal, o futebol não é o principal esporte praticado e acompanhado nos EUA.

Expectativas iniciais versus realidade

A lógica por trás desse argumento parece razoável. Os Estados Unidos já concentram algumas das propriedades esportivas mais valiosas do planeta. O calendário é dominado por eventos como o Super Bowl, NBA, a World Series da MLB e o US Open, além de uma oferta praticamente inesgotável de entretenimento, tecnologia e experiências voltadas ao consumidor. Em um ambiente tão competitivo, a expectativa de parte da imprensa e dos analistas era de que a Copa do Mundo encontraria limitações para capturar atenção e engajamento em larga escala.

O que os primeiros jogos do torneio demonstram, no entanto, é exatamente o oposto. A mobilização observada não se restringe às partidas envolvendo seleções tradicionalmente populares ou mercados de grande relevância comercial. Jogos entre países sem histórico de grandes audiências globais também têm registrado estádios cheios e forte interesse do público. Trata-se de um sinal importante porque revela uma característica rara dentro da indústria esportiva: a força da Copa do Mundo independe, em grande medida, dos protagonistas em campo.

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Posicionamento único da Copa

Enquanto muitas propriedades esportivas dependem da presença de grandes estrelas, rivalidades históricas ou equipes específicas para maximizar audiência e receitas, a Copa construiu ao longo das décadas um posicionamento único. O evento em si tornou-se o principal ativo. Seu poder de mobilização ultrapassa fronteiras geográficas, diferenças culturais e até mesmo o estágio de maturidade dos mercados em que é realizado. A última edição aconteceu no Catar, em um período incomum do calendário esportivo mundial, e ainda assim registrou níveis extraordinários de audiência e engajamento. Agora, em um dos mercados mais disputados do planeta, a competição volta a demonstrar sua capacidade de gerar demanda própria.

Essa característica ajuda a explicar por que a Copa ocupa uma posição singular na economia global do esporte. Poucos ativos conseguem reunir simultaneamente torcedores, patrocinadores, empresas de mídia, plataformas digitais, operadores de infraestrutura e investidores em uma escala comparável.

Impacto em cidades globais

A dimensão alcançada pelos megaeventos torna-se ainda mais evidente quando observamos seus impactos sobre cidades que já operam em nível global. Nova Iorque talvez seja o melhor exemplo. Acostumada a receber alguns dos maiores eventos esportivos, culturais e corporativos do mundo, a cidade possui uma infraestrutura desenhada para lidar com grandes fluxos de pessoas e operações complexas. Ainda assim, a realização de partidas da Copa do Mundo impõe um nível adicional de exigência logística.

A movimentação de dezenas de milhares de torcedores, a organização dos sistemas de transporte, as operações de segurança, a estrutura de alimentação, as ativações comerciais e a necessidade de garantir uma experiência consistente para públicos vindos de diferentes partes do mundo criam desafios que vão muito além da organização de uma partida de futebol. Em muitos aspectos, o evento funciona como uma operação de negócios temporária instalada dentro da cidade, exigindo coordenação entre diversos agentes públicos e privados.

Expectativa do consumidor moderno

O aspecto mais relevante dessa dinâmica não está apenas no volume de pessoas mobilizadas, mas na expectativa criada em torno da experiência. Além de assistir a uma partida, o consumidor contemporâneo espera interagir com marcas, participar de ativações, consumir conteúdo, acessar serviços digitais e vivenciar uma jornada integrada antes, durante e depois do evento. Isso explica porque a qualidade da execução operacional tornou-se um componente tão importante quanto o espetáculo esportivo em si.

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A evolução desses grandes encontros passa justamente por essa mudança de lógica. Durante décadas, o foco estava concentrado na competição. Hoje, está na construção de ecossistemas capazes de gerar valor para diferentes públicos simultaneamente. O estádio é apenas um dos pontos de contato dentro de uma cadeia muito mais ampla de experiências, produtos e serviços.

Transformação estrutural da indústria

É nesse contexto que a Copa do Mundo ajuda a revelar uma transformação estrutural mais profunda da indústria esportiva. Os maiores eventos do planeta deixaram de ser apenas competições para se consolidarem como plataformas globais de negócios.

Seu impacto já não pode ser medido apenas por audiência, venda de ingressos ou direitos de transmissão. O valor gerado se espalha por setores como turismo, hotelaria, mobilidade, tecnologia, varejo, entretenimento e infraestrutura. Ao concentrar atenção em escala global, criam oportunidades econômicas que extrapolam amplamente os limites do esporte.

Nova dinâmica competitiva

Essa transformação também altera a forma como as propriedades esportivas competem. Durante muito tempo, prevaleceu a ideia de que os grandes eventos disputavam diretamente a atenção do consumidor. O que a realidade atual sugere é algo diferente. A Copa do Mundo não substitui o Super Bowl, as finais da NBA ou o US Open. Ela adiciona uma nova camada de consumo, investimento e engajamento a mercados que já são altamente desenvolvidos. Em vez de redistribuir atenção, os megaeventos ampliam o tamanho da oportunidade econômica disponível.

Talvez essa seja a principal mensagem deixada pelo que estamos observando nos Estados Unidos. Se a Copa do Mundo é capaz de mobilizar públicos, alterar a dinâmica de cidades globais e gerar demanda em um mercado que já abriga algumas das propriedades esportivas mais poderosas do mundo, estamos diante de um fenômeno que transcende o futebol.

O esporte continua sendo o ponto de partida. Mas os maiores eventos do planeta estão se tornando, cada vez mais, plataformas globais de negócios, influência e geração de valor. E a Copa do Mundo segue sendo o exemplo mais emblemático dessa transformação.

Pedro Oliveira é Formado em Marketing na ESPM, em Direito pelo Mackenzie e com dupla graduação em MBA em Gestão de Negócios do Esporte e LLM em Direito do Esporte pela Universidade de Columbia (EUA). Depois de atuar por 8 anos em companhias multinacionais, em áreas de planejamento estratégico e M&A, co-fundou a OutField para contribuir no processo de transformação do mercado esportivo globalmente. Atualmente, além de sua atuação na OutField, por meio dos projetos de consultoria e da gestão dos investimentos do grupo, também é conselheiro de empresas como Coritiba FC, Le Mans FC, Bepass, Final Level e 2morrow Sports.