Bolsa brasileira mantém potencial de alta apesar de riscos, dizem bancos
Bolsa brasileira mantém potencial de alta, dizem bancos

Depois de um primeiro semestre marcado por oscilações intensas, saída de fluxo estrangeiro, discussões fiscais e aumento das incertezas eleitorais, o consenso entre estrategistas está longe de ser negativo para a Bolsa brasileira. Bancos e corretoras continuam vendo argumentos relevantes para uma visão construtiva sobre as ações locais.

De Goldman Sachs a Morgan Stanley, passando por XP Investimentos, a avaliação é que o mercado brasileiro reúne uma combinação rara de valuations descontados, potencial de melhora macroeconômica e possíveis catalisadores políticos capazes de destravar valor nos próximos trimestres.

1. A Bolsa brasileira continua barata em termos históricos

O principal argumento dos otimistas segue sendo o valuation. O Goldman Sachs reiterou recomendação de compra para o Brasil dentro dos mercados emergentes, afirmando que as ações brasileiras são negociadas a cerca de 8 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses — um patamar considerado atrativo tanto em comparação com outros emergentes quanto em relação aos ciclos anteriores de queda de juros.

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A mesma leitura aparece no Morgan Stanley, que ressalta que a Bolsa brasileira negocia perto de um cenário pessimista (“bear case”), com múltiplo de aproximadamente 8,2 vezes lucros, criando uma relação risco-retorno favorável para investidores de longo prazo.

2. O pessimismo extremo pode virar combustível para o mercado

A XP Investimentos destaca que um dos principais fatores para manter uma visão construtiva sobre o mercado é justamente o sentimento excessivamente negativo dos investidores. Segundo os estrategistas da casa, seu indicador proprietário de sentimento continua apontando para níveis de “Pessimismo Extremo”, algo que historicamente funcionou como indicador contrário para o mercado.

Em outras palavras, quando a percepção sobre os ativos brasileiros fica excessivamente ruim, costuma surgir espaço para recuperação das ações. Mesmo após reduzir sua projeção para o Ibovespa de 205 mil para 200 mil pontos, a XP ainda vê potencial de valorização de cerca de 16% em relação ao fechamento de junho.

3. Uma rotação global para fora do trade de IA pode favorecer o Brasil

Outro argumento recorrente é ligado ao fluxo internacional. A XP avalia que a concentração de recursos globais em empresas relacionadas à inteligência artificial foi um dos principais fatores por trás da saída de capital estrangeiro das ações brasileiras nos últimos meses. Caso esse movimento perca força, o Brasil pode se beneficiar de uma rotação de capital em direção a mercados mais ligados a commodities e ações de valor.

O Morgan Stanley compartilha visão semelhante. Para o banco, América Latina — e especialmente o Brasil — pode ser uma beneficiária indireta do ciclo global de investimentos em infraestrutura, energia, mineração e commodities associado ao avanço da inteligência artificial.

4. Queda dos juros pode destravar setores domésticos

Embora o mercado tenha revisado expectativas para a Selic, estrategistas ainda enxergam espaço para reprecificação dos ativos mais ligados à economia brasileira. O Goldman Sachs afirma que qualquer alívio nas expectativas para os juros tende a beneficiar ações mais sensíveis ao ciclo doméstico, incluindo bancos, utilities, empresas de telecomunicações, incorporadoras voltadas para baixa renda e parte do varejo.

“Embora a volatilidade possa aumentar no segundo semestre, à medida que se aproximam as eleições, qualquer alívio na reprecificação mais agressiva das expectativas para os juros decorrente da redução dos preços de energia tende a favorecer as ações domésticas mais sensíveis aos juros, que acumulam queda no ano e ainda estão cerca de 20% abaixo dos níveis anteriores ao conflito”, acrescentaram os analistas.

5. As eleições podem se transformar em um catalisador positivo

Embora a eleição presidencial seja frequentemente citada como fonte de volatilidade, o Morgan Stanley vê o pleito de 2026 como um potencial gatilho para redução do prêmio de risco do Brasil. Segundo os estrategistas do banco, o país representa hoje a principal história eleitoral da América Latina.

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Caso o mercado passe a precificar expectativas de maior disciplina fiscal após as eleições, o prêmio de risco brasileiro poderia cair significativamente. O Morgan calcula que uma compressão semelhante à observada recentemente na Colômbia poderia direcionar aproximadamente US$ 10 bilhões da renda fixa para a bolsa brasileira.

6. Lucros corporativos continuam resilientes

Mesmo em meio ao ambiente de juros elevados e desaceleração econômica, os analistas continuam vendo capacidade de geração de resultado em diversos setores da bolsa brasileira. O Morgan Stanley destaca a resiliência dos lucros corporativos, especialmente entre empresas exportadoras e ligadas a commodities.

Já especialistas ouvidos pelo InfoMoney ressaltam que o atual ambiente favorece companhias com balanços sólidos, forte geração de caixa e receitas previsíveis.

Riscos continuam no radar

Os estrategistas não ignoram os obstáculos, tendo como principais fatores de preocupação a trajetória fiscal brasileira, os juros longos acima de 14%, a volatilidade das eleições de 2026 e os movimentos do Federal Reserve, que seguem influenciando o fluxo para mercados emergentes. Ainda assim, a mensagem predominante das casas que permanecem otimistas é que boa parte desses riscos já está refletida nos preços.

Para os defensores da tese brasileira, é justamente essa combinação entre expectativas deprimidas e ativos descontados que cria uma oportunidade potencialmente interessante para investidores dispostos a conviver com volatilidade no curto prazo.