O Banco Central (BC) alertou, na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que medidas econômicas anunciadas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva podem gerar riscos para a alta da inflação. O documento, divulgado nesta quarta-feira, 25 de junho, destaca que a percepção de risco fiscal e a incerteza sobre a trajetória da dívida pública têm potencial para elevar as expectativas de inflação no longo prazo.
Riscos fiscais e expectativas de inflação
Segundo a ata, o Copom observou que a aprovação de medidas que ampliam gastos públicos ou reduzem receitas, sem contrapartidas fiscais adequadas, pode comprometer a âncora fiscal e, consequentemente, as expectativas de inflação. O comitê mencionou especificamente propostas como o aumento do salário mínimo acima da inflação e a ampliação de programas sociais, que, embora tenham impacto direto no bem-estar, podem gerar pressões inflacionárias se não forem acompanhadas de ajustes nas contas públicas.
O documento ressalta que, em um cenário de incerteza fiscal, os agentes econômicos tendem a elevar suas projeções de inflação, o que exige uma resposta mais contracionista da política monetária. O Copom manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano, mas indicou que futuros movimentos dependerão da evolução do quadro fiscal e das expectativas de inflação.
Impacto na política monetária
O BC destacou que a política monetária já está em nível contracionista, mas que a persistência de riscos inflacionários pode exigir uma postura mais cautelosa. A ata afirma que o Copom continuará monitorando de perto a evolução da inflação e das expectativas, e que não hesitará em ajustar a taxa de juros caso necessário para cumprir a meta de inflação.
Os membros do comitê também discutiram o impacto das medidas econômicas sobre a inflação de serviços e a inflação subjacente, que têm mostrado resiliência. O BC projetou que a inflação deve se manter acima do centro da meta em 2026 e 2027, caso as medidas anunciadas sejam implementadas sem ajustes fiscais compensatórios.
Reações do mercado
O mercado financeiro reagiu com cautela ao alerta do BC. O índice Bovespa fechou em queda de 0,5%, enquanto o dólar comercial subiu 0,3%, cotado a R$ 5,10. Analistas consultados pelo BC, no boletim Focus, elevaram suas projeções de inflação para 2026 de 4,5% para 4,7%, e para 2027 de 3,8% para 4,0%. A expectativa para a Selic no fim de 2026 também subiu, de 12,50% para 12,75%.
Em nota, o Ministério da Fazenda afirmou que as medidas do governo são necessárias para estimular a economia e reduzir desigualdades, e que o ajuste fiscal será feito de forma gradual. A pasta destacou que a dívida pública bruta está sob controle e que as reformas em andamento, como a tributária, contribuirão para a sustentabilidade fiscal no longo prazo.
Contexto e perspectivas
O alerta do BC ocorre em meio a um debate acirrado sobre a política econômica do governo Lula. Economistas de diferentes correntes têm criticado a falta de clareza sobre o arcabouço fiscal, que substituiu o teto de gastos. O novo regime fiscal, aprovado no ano passado, permite um crescimento real dos gastos de 0,6% a 2,5% ao ano, mas sem mecanismos automáticos de ajuste em caso de descumprimento das metas.
Para o economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, o comunicado do BC reforça a necessidade de uma sinalização mais forte do governo sobre o compromisso com o equilíbrio fiscal. "A ata deixa claro que o BC está preocupado com o efeito das medidas sobre as expectativas de inflação. Sem um ajuste fiscal crível, a política monetária terá que ser mais dura, o que pode prejudicar o crescimento", afirmou.
O governo, por sua vez, tem defendido que as medidas são temporárias e que o crescimento econômico gerará aumento de receitas, compensando os gastos extras. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reiterou que a equipe econômica está trabalhando para garantir a responsabilidade fiscal e que o arcabouço fiscal é suficiente para assegurar a sustentabilidade da dívida.
O próximo relatório de inflação do BC, previsto para o fim de julho, trará novas projeções e poderá indicar se as expectativas continuam se deteriorando. O Copom volta a se reunir em agosto para decidir sobre a taxa Selic.



