A XP Investimentos iniciou a cobertura do setor de saúde brasileiro com uma perspectiva bastante otimista para o próximo ano. Em relatório, o analista Gustavo Tiseo destaca possuir uma “visão construtiva, esperando que 2026 seja um ano particularmente favorável para a maioria dos players”.
A casa de análise aponta que o segmento é negociado atualmente com um desconto atrativo, de cerca de 40% em relação ao seu P/L histórico com base nas estimativas para 2027, configurando um momento oportuno para o investidor apesar do cenário macroeconômico.
Ciclo do setor de saúde
Os analistas explicam que o mercado de saúde é inerentemente cíclico e costuma passar por três fases distintas que duram cerca de dois anos cada. Atualmente, o setor está em transição da fase de forte desempenho operacional para a fase II, caracterizada por resultados ainda sólidos, mas que já começam a sofrer com a crescente pressão de preços sobre o crescimento de prêmios.
“Embora a competição tenha se intensificado em 2025, esperamos que 2026 permaneça operacionalmente resiliente”, ressalta o documento para justificar por que o momento atual ainda é favorável para os balanços das companhias.
Principais recomendações
Nesse cenário de transição de ciclo, as principais escolhas da XP para compor a carteira são a Rede D’Or (RDOR3) e a BradSaúde (SAUD3). Os analistas dão preferência a essas duas empresas pela forte presença de catalisadores operacionais de curto prazo e à elevada disciplina no provisionamento de IBNR (Sinistros Incorridos Mas Não Avisados), um mecanismo contábil que confere flexibilidade para absorver potenciais volatilidades do mercado.
O relatório ressalta, porém, que existem riscos no radar que podem afetar o desempenho das empresas, envolvendo principalmente “o aumento do desemprego, a intensificação da concorrência de preços e uma regulação mais rigorosa dos planos de saúde corporativos”, elementos que poderiam gerar maior compressão de margens.
Desempenho de hospitais, seguradoras e farmacêuticas
Para a Rede D’Or, os analistas projetam um cenário de forte expansão, estimando uma aceleração na adição de 286 leitos operacionais em 2026 e a continuidade da expansão da margem EBITDA consolidada para 18%.
“A maturação dos ativos deve permitir uma expansão gradual das margens, enquanto a SulAmérica adiciona resiliência”, afirma o relatório para explicar como a seguradora integrada ajuda a proteger o grupo, trazendo estabilidade para o MLR (Índice de Sinistralidade Médica) no curto prazo por meio de um excesso de provisionamento calculado em cerca de 13 pontos percentuais.
No segmento de seguros de saúde, o documento detalha que a BradSaúde também se encontra protegida por possuir reservas adicionais estimadas em 8 pontos percentuais acima do requerido. O relatório pontua que a empresa passou por uma “transformação estrutural rumo a um operador de saúde mais diversificado, após o spin-off”, o que a coloca em posição de entregar resultados muito mais consistentes, apoiada por escala, forte capitalização e disciplina na subscrição de riscos. Os analistas acreditam que o potencial de valorização do papel virá da aceleração de parcerias com prestadores de serviços e de uma reavaliação de seus múltiplos de mercado.
No nicho de farmacêuticas, o documento mostra uma retomada importante no crescimento da receita, superando um período recente marcado por restrições de capacidade, ajustes excessivos de estoques nos canais de distribuição e aumento da concorrência. Conforme a XP, os balanços do primeiro trimestre de 2026 (1T26) confirmam a recuperação do momentum de vendas, deixando companhias como Hypera (HYPE3) e Blau (BLAU3) com descontos atrativos de aproximadamente 30% frente aos seus níveis históricos de avaliação.
Histórias de recuperação
O relatório identifica que as histórias de reestruturação financeira e operacional começam a se materializar de forma consistente no mercado brasileiro. Empresas que enfrentam altos níveis de alavancagem financeira ou sérios gargalos operacionais, com destaque para Dasa (DASA3) e Mater Dei (MATD3), passam a reportar números consideravelmente mais robustos.
A expectativa é de que ambas apresentem melhorias relevantes e uma forte expansão de margem EBITDA ao longo de 2026, com ampliações projetadas em 490 pontos-base para a Dasa e 80 pontos-base para a Mater Dei.
Quando se trata de Hypera, os analistas destacam a proximidade de um ponto de virada nos negócios, com o crescimento prestes a ganhar velocidade. O documento menciona que “um pipeline (cronograma de lançamentos) mais robusto, especialmente com a semaglutida, combinado com melhorias em capital de giro e um balanço mais saudável”, deve sustentar a forte recuperação dos resultados operacionais da farmacêutica. O valuation atual de 6x P/L para 2027 é classificado como altamente atrativo pelo documento.
Recomendações neutras e cautelosas
Em contrapartida, o relatório adota uma postura bem mais equilibrada e cautelosa para outras ações do setor de saúde. Para a Fleury, a recomendação inicial é neutra devido ao valuation considerado exigente de 11x P/L para 2027, apontando que existem “riscos de diluição de margens decorrentes da diversificação do portfólio e do aumento da concorrência”, o que limita o potencial de alta das ações.
Já a Qualicorp enfrenta o cenário mais complexo do setor, com um processo de recuperação desafiador e visibilidade limitada para o crescimento, uma vez que a forte concorrência no segmento de PME continua pressionando severamente a sua base de clientes beneficiários e as suas margens operacionais.
Tabela de recomendações
- Rede D’Or (RDOR3): Compra, preço-alvo R$ 45,00
- BradSaúde (SAUD3): Compra, preço-alvo R$ 17,00
- Hypera (HYPE3): Compra, preço-alvo R$ 27,00
- Fleury (FLRY3): Neutra, preço-alvo R$ 17,00
- Dasa (DASA3): Compra, preço-alvo R$ 4,00
- Mater Dei (MATD3): Compra, preço-alvo R$ 6,50
- Blau (BLAU3): Compra, preço-alvo R$ 13,00
- Qualicorp (QUAL3): Neutra, preço-alvo R$ 2,00



