Médico cirurgião vira consultor de investimentos e gere R$ 50 milhões
Médico cirurgião vira consultor de investimentos e gere R$ 50 mi

Durante grande parte de sua carreira, Paulo Borges dedicou seus dias à análise de radiografias, tomografias e ressonâncias magnéticas, em busca da origem de dores, lesões e outras condições que afetam a coluna vertebral. Médico especializado em cirurgia da coluna e, mais recentemente, consultor de investimentos na Eleva Invest, Borges afirma que descobriu mais semelhanças entre a medicina e o mercado financeiro do que imaginava. Atualmente, ele administra R$ 50 milhões sob sua consultoria.

Paralelos entre medicina e finanças

"O que mais me surpreendeu quando comecei a estudar investimentos foi descobrir que economia e finanças são muito mais estruturadas do que eu imaginava", afirma Borges. "Existe evidência, metodologia, protocolo, exatamente como na medicina."

Em sua visão, um bom consultor trabalha de forma similar a um médico experiente: antes de qualquer recomendação, é preciso ouvir, investigar, levantar o histórico, identificar fatores de risco e só então definir uma estratégia. Em outras palavras: primeiro vem o diagnóstico, depois a prescrição.

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Formação e trajetória

A medicina parecia um destino natural para Borges. Filho de médicos — mãe pediatra e pai cirurgião —, ele cresceu em uma família que valorizava estudo, disciplina e formação acadêmica. Nascido e criado em São Paulo, estudou no Colégio Dante Alighieri e, aos 16 anos, fez intercâmbio na Nova Zelândia. Ao retornar ao Brasil, ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Depois da graduação, serviu como médico da Aeronáutica em Guaratinguetá antes de voltar à capital paulista para fazer residência em Ortopedia e Traumatologia, especialização em Cirurgia da Coluna Vertebral e doutorado. Atualmente, Borges integra os corpos clínicos do Hospital Sírio-Libanês e do Hospital Nove de Julho, em São Paulo.

Ao longo dos anos, acumulou interesses diversos. Praticou natação, karatê, rugby durante 13 anos — chegando a participar de seletivas para a seleção brasileira —, escalada esportiva e golfe. Também produziu cerveja artesanal em casa por cerca de uma década. Hoje, aos 43 anos, é casado, tem um filho de 10 anos e continua dividindo a agenda entre medicina e investimentos.

Outro traço curioso é sua relação com a mobilidade urbana. Depois de passar anos utilizando bicicleta como principal meio de transporte, abandonou o carro e adotou a motocicleta para enfrentar o trânsito paulistano.

Diagnóstico financeiro mudou sua trajetória

A mudança de área começou durante a pandemia. Com boa parte das atividades médicas reduzidas pelo isolamento social, Borges decidiu dedicar mais tempo ao estudo de investimentos. O ponto de partida foi uma inquietação pessoal: apesar de investir há anos, não compreendia exatamente como seu patrimônio estava sendo administrado.

"Eu tinha a impressão de que os gerentes não sabiam realmente o que estavam fazendo com o meu dinheiro", conta o médico. "Queria aprender para conseguir avaliar aquilo que me era recomendado."

O que começou como curiosidade rapidamente se transformou em estudo sistemático. Em vez de consumir apenas conteúdos introdutórios sobre investimentos, Borges mergulhou em livros de economia, teoria financeira e gestão de patrimônio. A dedicação culminou na aprovação na certificação CGA (Certificação de Gestores Anbima), credencial voltada a profissionais que atuam na gestão de recursos e que abriu caminho para sua atuação profissional no setor.

Foi nesse período que ele percebeu uma semelhança fundamental entre as duas profissões. Assim como um cirurgião de coluna não toma decisões apenas observando um exame isolado, um consultor não deveria recomendar investimentos sem compreender o contexto completo do cliente. "Você não recomenda um investimento antes de entender quem está na sua frente. É muito parecido com o atendimento médico", resume Borges.

A "coluna financeira" dos brasileiros

Como especialista em coluna, Borges costuma dizer que encontrou muitos pacientes com a "coluna financeira" comprometida. E não está falando apenas de pessoas de baixa renda. Segundo ele, uma das maiores surpresas ao ingressar no mercado financeiro foi perceber a fragilidade da educação financeira mesmo entre profissionais altamente qualificados, muitos com curso superior, inclusive médicos.

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"O que mais tem no Brasil é gente financeiramente quebrada. Já vi colegas médicos com 20 anos de carreira, renda alta e praticamente nenhuma reserva", afirma Borges.

Na avaliação do médico, muitos problemas financeiros não surgem de um único evento, mas de anos de decisões acumuladas, falta de planejamento e ausência de formação de patrimônio. Borges compara a situação a muitos problemas da coluna vertebral, que podem se desenvolver durante anos antes de provocar sintomas incapacitantes. "Não existe consultor, investimento ou gestor capaz de compensar a falta de poupança", avalia. "Se a pessoa não economiza, não há estratégia que resolva isso."

Da mesa cirúrgica para a gestão de patrimônio

Hoje, Borges ainda dedica cerca de 80% da rotina à medicina e 20% à consultoria financeira. "Não dá para simplesmente abandonar 20 anos de carreira", explica. A transição de carreira vem sendo feita de forma gradual. Atualmente, Borges reserva um dia inteiro da semana exclusivamente para a consultoria financeira, quando analisa carteiras, acompanha o mercado e aprofunda seus estudos sobre investimentos. Nos demais dias, a medicina ocupa a maior parte da agenda.

Quando iniciou sua atuação como consultor, em 2020, ele acompanhava aproximadamente R$ 500 mil em patrimônio de clientes. Atualmente, são cerca de R$ 50 milhões, crescimento que, segundo ele, ocorreu principalmente por meio de indicações de clientes e colegas médicos. A própria Eleva Invest também cresceu nos últimos anos. Segundo informações da empresa, a consultoria reúne cerca de 3,6 mil clientes e mais de R$ 1 bilhão em ativos acompanhados.

Confiança antes da performance

Se existe um princípio que Borges afirma ter levado integralmente da medicina para os investimentos, trata-se da confiança. Na relação médico-paciente, um tratamento depende da credibilidade construída entre as partes. Segundo ele, o mesmo ocorre na consultoria financeira. "Eu não recomendo nada para um cliente que eu não faria para mim mesmo", diz.

Borges conta que já encerrou relacionamentos profissionais quando percebeu que não havia confiança suficiente para sustentar o trabalho de longo prazo. Para ele, a comparação dos investimentos com a medicina surge naturalmente. Em ambos os universos, não existe receita mágica. Nenhum médico sério promete cura para todos os pacientes. Da mesma forma, nenhum consultor responsável pode garantir rentabilidades futuras. O que ambos podem oferecer é um processo baseado em metodologia, análise e acompanhamento contínuo.

Por isso, Borges acredita que o melhor consultor nem sempre é aquele que apresenta os maiores retornos em uma planilha. "O bom consultor não é o consultor que dá mais dinheiro para o cliente", pondera.

Depois de anos tratando hérnias, fraturas, compressões nervosas e doenças degenerativas da coluna, ele diz ter encontrado uma nova forma de aplicar a mesma lógica profissional: ouvir, entender as dores do cliente, diagnosticar riscos e prescrever soluções de longo prazo para cada caso. Mudaram os exames, os prontuários e os diagnósticos. Mas não a essência do trabalho. Assim, seja diante de uma ressonância magnética ou de uma carteira de investimentos, a missão continua sendo identificar riscos, compreender o contexto e buscar soluções compatíveis com a realidade de cada pessoa. O objetivo, em ambos os casos, é o mesmo: evitar que pequenos problemas ignorados hoje se transformem em grandes dores no futuro.