JPMorgan vê recuperação tática na Bolsa e lista ações com potencial de short squeeze
JPMorgan vê recuperação tática na Bolsa e lista ações

O JPMorgan destacou em relatório a chance de uma recuperação tática na Bolsa brasileira, apontando ações que podem subir com um possível short squeeze. Esse movimento ocorre quando uma alta rápida no preço de um ativo força investidores que apostaram contra ele (vendedores a descoberto) a recomprar as ações para fechar suas posições, gerando pressão adicional de compra e elevando ainda mais o preço.

Cenário favorável, porém desigual

De uma forma geral, para a Bolsa brasileira, o cenário para o segundo semestre é favorável, porém desigual. O crescimento global se mantém resiliente, a inflação persistente mantém os bancos centrais cautelosos e os investimentos em capital (capex) voltados para IA continuam sendo um fator de impulso, enquanto a geopolítica segue gerando riscos episódicos, apontam as estrategistas Cinthya Mizuguchi e Emy Shayo, que assinam o relatório. Nesse ambiente, a estratégia global de câmbio do banco permanece com viés de alta tanto para o beta quanto para o dólar, sendo que os ativos vencedores são impulsionados pelo carry (carregamento) elevado e pelos termos de troca nos mercados emergentes.

O Brasil se encaixa nessa lógica: taxas de juros reais elevadas, um banco central proativo e contas externas atreladas a commodities tornam o real mais atraente como uma operação de carry do que como uma aposta estrutural na desvalorização do dólar. Para as estrategistas, se o Brasil permanecer entre as melhores oportunidades ajustadas pelo carry nos mercados emergentes, isso pode ajudar a sustentar o fluxo de capital estrangeiro para o mercado de juros local e, consequentemente, para o mercado de ações. “Ao mesmo tempo, não estamos apresentando isso como uma aposta em uma recuperação estrutural”, avaliam.

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Riscos e volatilidade eleitoral

Os riscos são reais: um cenário de dólar mais forte, um contexto geopolítico ainda conturbado, saídas persistentes de capital (cerca de R$ 8 bilhões em junho) e uma trajetória de flexibilização monetária mais frágil, caso a inflação persistente force o banco central a pausar os cortes de juros devido a expectativas mais altas, crescimento mais forte ou pressões fiscais. As eleições adicionam uma camada extra de volatilidade, especialmente porque o histórico mostra que os mercados não apresentam bom desempenho nos seis meses que antecedem o pleito.

“Portanto, o potencial de valorização que observamos é tático e condicional, apoiado por valuations atrativos (índice P/L, ou preço sobre lucro, projetado de 7,8 vezes para os próximos 12 meses), forte crescimento dos lucros (36% em relação ao ano anterior) e baixo posicionamento dos investidores — cenário que melhora caso o ambiente global caminhe para uma desvalorização do dólar (por exemplo, via preços do petróleo/termos de troca ou redução do excepcionalismo econômico dos EUA)”, avaliam Emy e Cinthya.

Posições vendidas elevadas

A relação de posições vendidas no Brasil permanece em níveis elevados há quase um ano, oscilando acima de 3,5% e situando-se agora em torno de 3,6%, o que indica que o posicionamento de baixa (bearish) ainda é significativo, e não apenas um pico passageiro. O banco monitora dois indicadores: o short interest (posições vendidas) como proporção do free float (que mede a concentração de posições) e os “dias para cobrir” (que indicam a dificuldade de sair da posição caso os preços variem). Por setor, Consumo Discricionário e Consumo Básico apresentam as posições mais concentradas (acima de 8% do free float), enquanto os setores de Bens Industriais e Energia mostram posições mais leves (em torno de 3%).

Quanto aos “dias para cobrir”, os setores Financeiro, de Consumo Básico e de utilities destacam-se pelo maior potencial de short squeeze, ao passo que Energia e Saúde parecem menos expostos. Entre as empresas que o JPMorgan tem recomendação overweight (exposição acima da média, equivalente à compra), aquelas onde o posicionamento vendido cria maior assimetria de alta, caso a narrativa melhore, são: Vivara (VIVA3), Natura (NATU3), MBRF (MBRF3), Minerva (BEEF3), Usiminas (USIM5) e Vamos (VAMO3).

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Dividendos sustentáveis em foco

Já olhando para os dividend yields (rendimento de dividendos), o banco foca em retornos de dividendos sustentáveis, e não apenas em números isolados impulsionados por pagamentos extraordinários. “Comparamos o yield atual com o histórico da empresa e realizamos testes de estresse de sustentabilidade usando o fluxo de caixa livre (FCF): quando o yield do FCF supera o yield do dividendo, há maior probabilidade de que os pagamentos sejam financiados pela operação, e não por alavancagem, venda de ativos ou manobras contábeis”, aponta. As estrategistas também analisam a alavancagem e a visibilidade dos resultados para o período de 2026–2027, pois lucros estáveis e dívidas administráveis são fatores que geralmente preservam os dividendos em momentos de aperto nas condições de mercado.

Elas destacam buscarem evitar armadilhas de valor (value traps), nas quais o yield parece atraente no papel, mas não é sustentado pela geração de caixa; nossa análise aponta para as seguintes empresas: Petrobras (PETR4), Cury (CURY3), Localiza (RENT3), Vivara (VIVA3), Vamos (VAMO3), Yduqs (YDUQ3), Vale (VALE3), SmartFit (SMFT3), Hypera (HYPE3) e Ser Educacional (SEER3).

Overweight em Brasil, mas com cautela

O JPMorgan segue overweight em Brasil, mantendo uma postura seletiva, porém construtiva, em relação às ações do país, priorizando ativos de maior qualidade e adotando uma abordagem top-down (método que parte de uma visão macro ou geral para depois olhar para as empresas) voltada para os setores financeiro, de utilities e de commodities, embora reconheçam que fluxos mais fracos e as eleições de outubro são fontes importantes de volatilidade. O principal desafio no curto prazo continua sendo a pressão sobre os fluxos de capital: os resgates desde meados de abril já representam 50% do total de aportes do ano.

Isso reflete um cenário global menos favorável, incluindo a valorização do dólar, a alta nos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA (Treasuries) e a concentração renovada de fluxos em mercados voltados para IA e tecnologia, deixando o Brasil em uma posição relativamente menos favorecida. No cenário doméstico, um ciclo de flexibilização monetária mais moderado e a manutenção de taxas de juros em patamares elevados por mais tempo também limitam os argumentos para uma reavaliação ampla dos preços (re-rating), ao passo que a incerteza eleitoral permanece relevante, especialmente diante de pesquisas que apontam um cenário de segundo turno disputado.

O JPMorgan também destaca que o valuation é favorável, mas não atua, por si só, como catalisador para impulsionar o mercado: o índice MSCI Brazil é negociado a 7,8 vezes o P/L (múltiplo de preço sobre o lucro) projetado para os próximos 12 meses (abaixo das 10,5 vezes registradas em janeiro/fevereiro), com 8 dos 10 setores operando abaixo de suas médias históricas. “A expectativa é de um crescimento modesto dos lucros, enquanto o posicionamento leve e o elevado volume de posições vendidas (short interest) criam tanto uma situação de fragilidade quanto um potencial de valorização caso o sentimento do mercado melhore”, apontam. Em termos de seleção de ativos, Emy e Cinthya priorizam empresas que combinem recompras ativas de ações, metas de valorização expressivas e uma dinâmica de lucros em melhora, particularmente nos setores de indústria, consumo discricionário e financeiro. Já fatores que podem alterar esse cenário incluem uma melhora adicional no apetite global por risco e eventuais medidas de estímulo na China que beneficiem setores não ligados à tecnologia de emergentes.