O patrimônio líquido dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) no Brasil saltou de R$ 33,9 bilhões em 2012 para R$ 612,4 bilhões em 2025, um crescimento superior a 1.700%, segundo levantamento da Economatica. Em 2024, foram registrados 891 novos fundos, o maior volume anual da história, e em maio de 2025 o total chegou a 5.231 fundos registrados.
FIDCs vieram para ficar, diz gestor
Michel Rubin, sócio-diretor de crédito da M8 Partners — gestora com mais de R$ 20 bilhões em ativos —, afirma que o crescimento não é passageiro. "Ele veio para ficar, até por ser um ótimo veículo de investimento. Para crédito, é um produto que, se bem analisado, dependendo da forma como você olha para dentro das carteiras e entende o que tem lá dentro, pode se transformar em um fundo seguro", disse Rubin durante a edição 191 do Outliers InfoMoney.
Três fatores sustentam essa visão. O primeiro é a governança: "Esse mercado está tomando uma proporção em relação à governança, até nos prestadores de serviço, nos gestores, nos administradores, até nas casas de rating. Lá atrás, todo mundo falava que os FDICs eram uma caixa-preta. Hoje, você já tem acesso a informações do que tem lá dentro." O segundo fator é a disrupção bancária: os FIDCs oferecem agilidade na aprovação de crédito e taxas competitivas. O terceiro é o alcance: "Ele acaba trazendo uma capilaridade dentro de lugares onde, às vezes, os bancos não conseguem chegar", afirma Rubin.
Inadimplência controlada nas cotas seniores
O resultado aparece nos indicadores de inadimplência. "O índice de problemas na cota sênior, desde o início da regulamentação dos FDICs, é de menos de 0,5% do patrimônio líquido", diz o sócio-diretor de crédito da M8.
Segundo a Anbima, o número de gestoras com FIDCs saltou de 372 para 426 em apenas um ano. Rubin encara o movimento com naturalidade: "Por que a gente está passando por um momento de crédito? Porque já está vendo há algum tempo a Bolsa andar de lado e os multimercados sem um viés definido, enquanto o crédito oferece taxa DI a 15%, mais spread. Uma rentabilidade excelente. Quando os juros voltarem para a casa de 8%, se um dia isso acontecer, obviamente vai mudar."
Riscos do crescimento acelerado
O crescimento acelerado traz questões de amadurecimento do mercado. "A gente vê muita gente que nunca trabalhou com isso abrindo FDICs, por achar que é fácil, e o excesso de liquidez para essa indústria acaba mascarando o risco. Por isso a gente sempre fala para o investidor: não se aventure sozinho, sem entender de crédito e sem entender qual é a ponta final do risco", alerta Rubin.
Sem o devido conhecimento, mesmo mecanismos de proteção como a subordinação de cotas podem ser insuficientes. Rubin explica que em carteiras pulverizadas — com centenas de sacados — a subordinação funciona bem: se os dez maiores tomadores representam 10% do patrimônio e a subordinação é de 20%, ainda sobra margem de segurança mesmo que todos quebrem. O problema aparece nos FIDCs de risco-sacado, em que uma única empresa concentra o risco. "Não existe too big to fail. Dependendo do tamanho do problema, a empresa não vai pagar, não importa se você é júnior ou sênior na fila", alerta. Se o sacado único falha, a subordinação não segura a perda.
Onde olhar antes de confiar no contrato
Para Rubin, entender os FIDCs exige ir além do rating e da estrutura de capital: é preciso entender os incentivos de quem origina o crédito. Um exemplo prático é a forma como as consultoras de crédito remuneram sua equipe comercial. "Geralmente, nas consultoras, o comercial recebe uma comissão para cada operação de FDICs. Qual a diferença de receber a comissão pré ou pós o dinheiro voltar para a carteira? No pré, ele pode fazer um monte de operações, ganhar a comissão e ir embora, deixando um problemão na carteira. Quando ele só recebe a comissão após o dinheiro retornar do crédito, você tem um alinhamento de interesse."
Outros sinais de alerta incluem o índice de vencidos, o índice de recompra — quando o cedente precisa substituir títulos não pagos pelo sacado — e mudanças na composição da carteira, como a migração repentina de duplicatas para modalidades de crédito mais longas e menos testadas pelo originador.
Momento dos FIDCs: ambiente propício
O cenário atual de crédito privado combina inadimplência elevada com maturidade institucional crescente. "A gente está passando por uma crise há algum tempo, não tem como piorar muito", diz Rubin. Nas carteiras que acompanha, a inadimplência subiu de um patamar médio de 3% a 3,5% para 4,1% — moderado diante de uma subordinação média de 30%. "O pior momento de crédito que eu vivi foi a pandemia, quando esse índice foi para 7%."
Mesmo com o aumento de pedidos de recuperação judicial, Rubin não vê o mesmo salto nas perdas: "Você não teve um aumento de perda tão expressivo. É um ano muito mais trabalhoso, porém a perda não cresce da forma como o trabalho está crescendo."
Para o sócio da M8, agora é justamente o momento de crescer. "O ambiente para crédito, para quem sabe trabalhar, está propício. Na hora que essa crise melhorar — e ela vai passar, porque no Brasil a cada três anos a gente tem uma crise de crédito —, vai voar."



