Os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) consolidam-se como o grande destaque dos investimentos no ano, oferecendo rendimento elevado a um número crescente de investidores. Com baixa oscilação de preço e isenção da antecipação do Imposto de Renda (come-cotas), esses fundos surgem como alternativa diante da queda da remuneração dos CDBs de bancos menores e do receio com dívidas de grandes empresas, que assombraram parte dos investidores em crédito privado em 2026.
Captação recorde e expansão do número de investidores
Os FIDCs fecharam os primeiros seis meses do ano com captação líquida de R$ 30 bilhões, atrás apenas dos fundos de renda fixa, dos ETFs e dos fundos de participações, segundo dados da Anbima. O número de investidores pessoas físicas cresceu quase 20%, para 435 mil contas. A quantidade de fundos também avançou, de 3.930 em dezembro para 4.147 ao fim do semestre, com patrimônio total de R$ 771,4 bilhões. A expectativa é que a expansão continue, apesar dos riscos de maior inadimplência.
Rumo a R$ 1 trilhão em patrimônio
Alexandre Muller, diretor de Investimentos da Leto Capital, especializada em crédito privado, estima que os FIDCs cheguem a R$ 1 trilhão em patrimônio nos próximos meses. “Os FIDCs farão uma revolução no mercado financeiro”, afirma. A gestora tem em análise 22 operações de FIDCs com valor estimado em R$ 7,9 bilhões, dos quais a expectativa é lançar mais de R$ 1 bilhão no segundo semestre. Na Solis Investimentos, referência no segmento, há R$ 1,1 bilhão em novos FIDCs com documentação assinada a serem lançados, com R$ 300 milhões a R$ 400 milhões destinados ao varejo.
Segundo Alfredo Marrucho, sócio da Uqbar, plataforma especializada em dados de fundos estruturados, os FIDCs crescem porque combinam duas tendências fortes: a demanda das empresas por fontes alternativas de financiamento e a busca dos investidores por diversificação em crédito privado. A Uqbar contabilizou R$ 85,4 bilhões em cotas de FIDC emitidas entre janeiro e maio de 2026. Muitas dessas emissões não entram nos dados de ofertas públicas da Anbima. Marrucho alerta, porém, que é importante separar crescimento de maturidade: “FIDC não deve ser tratado como algo de prateleira, é um produto de crédito, com risco de inadimplência, liquidez, qualidade de lastro, subordinação, critérios de elegibilidade e governança”.
Mudança estrutural no mercado de renda fixa
Para Richard Ionesco, CEO e fundador do Grupo IOX, o investidor está diante de uma mudança estrutural no mercado de renda fixa. As novas regras do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) reduziram o espaço para captações agressivas dos bancos médios, enquanto o crédito bancário ficou mais seletivo e o mercado passou a precificar melhor o risco de cada operação. Entre janeiro e maio deste ano, o número de investidores qualificados que aplicam nos FIDCs da IOX cresceu 82,98%.
João Baptista Peixoto Neto, presidente da Ouro Preto Investimentos, afirma que os FIDCs devem ser em breve a segunda maior classe de fundos, atrás apenas da renda fixa. A Ouro Preto se prepara para lançar seu primeiro FIDC específico para o varejo ainda este ano. “O crédito está deixando de ser bancário e indo para o mercado de capitais, como aconteceu nos Estados Unidos”, diz Peixoto. Ele projeta que, em cerca de três anos, com 200 fundos abertos, o mercado possa chegar a 5 milhões de investidores, superando bolsa e fundos imobiliários.
Remuneração atrativa e riscos
Segundo Peixoto, o crédito sem intermediação bancária permite pagar uma taxa melhor ao investidor, de 1% a 2% acima do CDI para o varejo, mesmo com custo menor para o tomador. Dos 144 FIDCs da Solis Investimentos, 10 são abertos, entre eles o Pioneiro, que começou o ano com R$ 738 milhões de patrimônio e está chegando a R$ 1,1 bilhão, com 100 a 150 novos investidores por dia. A carteira saltou de 11,2 mil para 16 mil cotistas e tem apresentado retornos em torno de 110% do CDI, o que equivale a 1,3% a 1,4% além do referencial da renda fixa, diz Ricardo Binelli, sócio da Solis.
Em ambiente de juros elevados, os FIDCs bem estruturados têm entregado CDI+2% a CDI+5% ao ano, dependendo do risco, do lastro e da subordinação, afirma Ionesco. “Mas é preciso destacar que o melhor FIDC não é necessariamente o que promete a maior taxa, mas aquele em que o retorno está bem explicado pela qualidade do lastro, pela subordinação, pelos critérios de elegibilidade e pela capacidade da gestora de acompanhar a carteira”, destaca. Ele reforça que o FIDC não tem FGC e a proteção vem da estrutura.
Pontos de alerta: taxas e inadimplência
Peixoto já observa aumento de inadimplência, mas nada que não seja compensado pela gordura dos juros mais altos, das garantias e pelo sistema de cotas júnior e mezanino, que absorvem as perdas antes de chegarem às cotas sêniores. A concorrência por FIDCs vem aumentando, com grandes assets e investidores mostrando apetite cada vez maior por diversificar seus recursos, afirma Binelli. Com isso, cresce a busca por originadores ou FIDCs já existentes que possam emitir novas séries, criando escassez de ativos e risco de compressão importante de taxas para o investidor. “Grandes gestores com obrigação de aplicar acabam aceitando taxas mais baixas e quem não tem originação própria tem de se sujeitar a um mercado muito mais competitivo”, diz.
Binelli avalia a inadimplência como bem-comportada por enquanto, já que o maior volume de emissões é lastreado em créditos consignados públicos, de baixa inadimplência. Nos FIDCs multicedentes e multissacados, as carteiras seguem pulverizadas, com prazos curtos e mais garantias. O investidor deve ficar atento a quedas de cotas subordinadas por mais de dois meses, que podem indicar problemas mais sérios. O que preocupa Binelli é a briga por preços, que pode levar alguns fundos a flexibilizar suas políticas de investimento e aumentar os riscos. “Estamos vendo FIDCs propondo comprar créditos mais longos em fundos abertos com carências de 30 dias”, diz. Ele sugere alongar prazos de resgate e montar veículos fechados para absorver operações mais longas, além de investir na educação de investidores.
A Solis teme que, com o crescimento acelerado, surja algum problema em algum fundo que assuste os investidores, apesar das regras mais rígidas criadas pela Comissão de Valores Mobiliários depois da quebra do fundo Silverado em 2016. “Mas os riscos não são relevantes, já que há poucos FIDCs muito grandes e eles são de ativos mais óbvios, de menor risco, como consignado público e cartões de crédito de grandes bancos”, diz Binelli. Marrucho, da Uqbar, acredita que a seletividade deve aumentar: “Em vista dos acontecimentos recentes, o mercado deve olhar cada vez mais para transparência, qualidade dos dados, histórico de performance e capacidade dos gestores de atravessar ciclos de crédito”. Ionesco, da IOX, ressalta: “O investidor precisa entender que FIDC não tem FGC, a proteção vem da estrutura”. Julya Wellisch, diretora da Anbima, diz que a entidade acompanha o aumento da inadimplência, mas destaca que se trata de um segmento heterogêneo, com estrutura de proteção que deixa os fundos mais resilientes em momentos de estresse. A entidade está atualizando a classificação dos FIDCs para que o investidor de varejo identifique melhor o risco de cada tipo e divulgou recentemente um guia para Provisão de Devedores Duvidosos. “Estamos trabalhando para aprimorar a governança e a transparência desses produtos”, conclui.



