O transporte tornou-se o terceiro maior peso no orçamento das famílias brasileiras, segundo a 13ª edição dos Indicadores de Qualidade do Trabalho da Sondagem do Mercado de Trabalho do FGV Ibre, divulgada nesta terça-feira (14). Em junho de 2026, 27,6% dos entrevistados citaram o transporte entre as três principais despesas mensais, ante apenas 2% em junho de 2025 – um salto de 25,6 pontos percentuais.
Alimentação, contas e moradia lideram
A pesquisa aponta que a alimentação continua sendo o principal gasto, citada por 75% das famílias em junho de 2026, contra 74,2% no ano anterior. As contas de serviços públicos subiram de 36,8% para 50,3%, e o aluguel ou financiamento da moradia passou de 42,2% para 45,6%. Outros itens como saúde (32,7%), dívidas (23,3%), lazer (21,1%) e educação (18,5%) também avançaram.
Para Rodolpho Tobler, superintendente adjunto do FGV Ibre, o avanço do transporte está diretamente ligado ao aumento dos custos de deslocamento, especialmente dos combustíveis. “Tínhamos um percentual baixo falando desse fator [o transporte] no ano passado e, agora, ele é um dos três maiores gastos mensais das famílias”, ressalta. Segundo ele, a alta é influenciada pelos impactos do conflito no Oriente Médio sobre o mercado de petróleo, que elevam os preços dos combustíveis e do transporte, tanto individual quanto coletivo. “Esse é um fator que deve permanecer ainda em um patamar elevado”, explica.
Fechar as contas está mais difícil
Embora 69,1% dos entrevistados afirmem ter conseguido pagar as contas essenciais nos últimos três meses (abril a junho), esse percentual vem caindo desde fevereiro, quando era de 72,4%. Tobler avalia que o movimento reflete mais uma pressão de custos do que uma queda na renda. “Há duas óticas: ou as pessoas estão ganhando menos ou estão tendo mais custos. E me parece que é mais uma pressão de custos do que uma redução de ganhos”, explica.
Gustavo Assis, CEO da Asset Wealth Management, observa que o comportamento acompanha a trajetória dos preços ao consumidor. “O subgrupo de transportes no IPCA segue entre os mais voláteis, fortemente influenciado pelos combustíveis, pelas tarifas de transporte público e pelo custo dos veículos”, diz.
Orçamento concentrado no inadiável
André Matos, CEO da MA7 Negócios, destaca que os dados mostram um orçamento familiar concentrado em despesas que não podem ser adiadas. “Com 75% das famílias citando alimentação entre as maiores despesas, metade citando contas de serviços públicos e quase metade moradia, o orçamento brasileiro está concentrado no que é inadiável”, afirma.
Satisfação com o trabalho recua
A pesquisa também revela queda na satisfação com o emprego. No trimestre encerrado em junho, 64% dos trabalhadores se declararam satisfeitos, contra 68% em janeiro. A insatisfação subiu de 5,7% para 6,9%. O principal motivo apontado é a baixa remuneração, citada por 57,9% dos entrevistados.
Tobler relaciona a insatisfação ao fato de a renda não acompanhar o aumento dos custos. “Se a desaceleração continuar na economia, as pessoas entendem que o mercado de trabalho pode piorar nesse cenário. Então, existe uma certa cautela dos trabalhadores olhando para frente”, reitera. A pesquisa mostra ainda que 41% dos entrevistados consideram difícil conseguir emprego no Brasil.
Matos complementa que o mercado de trabalho brasileiro oferece “chão, mas não dá rede”. Ele explica que uma parcela grande dos brasileiros trabalha na informalidade ou por conta própria, o que facilita encontrar novas fontes de renda, mas sem proteção como seguro-desemprego ou FGTS. “É um mercado que dá chão, mas não dá rede”, afirmou.



