O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,16% em junho, abaixo da mediana das expectativas do mercado, que projetava 0,21%. O dado reforça a aposta de que o Banco Central pode iniciar um ciclo de cortes na taxa Selic já na reunião de agosto, embora a trajetória do petróleo ainda mantenha alerta entre os investidores.
Inflação mais fraca abre espaço para afrouxamento monetário
A leitura do IPCA de junho veio abaixo do consenso, indicando que a pressão inflacionária continua arrefecendo. O resultado foi influenciado principalmente pela queda nos preços de alimentos e transportes. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses recuou para 4,23%, ainda acima do centro da meta de 3,5%, mas em trajetória de desaceleração.
Para o economista-chefe de uma grande corretora, “o IPCA fraco dá mais confiança ao Copom para começar a reduzir a Selic, que está em 13,75% ao ano. O mercado já precifica um corte de 0,25 ponto percentual em agosto”. A expectativa é de que o ciclo de cortes se estenda até meados de 2027, levando a taxa básica a 11,5% ao ano.
Petróleo ainda é fator de risco
Apesar do cenário favorável, o preço do petróleo segue como principal fonte de preocupação. A commodity subiu mais de 10% no último mês, pressionada por cortes de produção da Opep+ e tensões geopolíticas. Um barril mais caro pode elevar os custos de combustíveis e impactar a inflação futura, limitando o espaço para cortes mais agressivos.
O boletim Focus do Banco Central mostra que as projeções para o IPCA em 2026 e 2027 permanecem estáveis, mas analistas alertam que “se o petróleo continuar subindo, o Copom pode adotar uma postura mais cautelosa”.
Mercado reage com otimismo moderado
A Bolsa brasileira (Ibovespa) opera em alta, refletindo o alívio com a inflação baixa. Papéis de empresas sensíveis a juros, como varejo e construção, lideram os ganhos. O dólar comercial caiu 0,5%, cotado a R$ 5,10, com a perspectiva de juros mais baixos atraindo investidores para ativos de risco.
No mercado de renda fixa, os títulos prefixados e indexados à inflação registraram queda nas taxas. O CDB com vencimento em 2027, por exemplo, passou de IPCA+6,5% para IPCA+6,3% ao ano. “O mercado já está precificando o corte, mas ainda há oportunidades para travar taxas elevadas”, afirma um analista de renda fixa.
Impacto nas contas públicas
A inflação mais baixa também alivia a pressão sobre o governo federal, que vê as despesas indexadas ao IPCA, como benefícios previdenciários, crescerem menos. No entanto, a arrecadação de impostos como o PIS/Cofins, que incidem sobre o faturamento, pode ser afetada negativamente se a atividade econômica não acelerar.
O ministro da Fazenda comentou que “a inflação sob controle é condição necessária para o crescimento sustentável”. Ele reforçou o compromisso com o arcabouço fiscal, que prevê superávit primário em 2026.
Perspectivas para o segundo semestre
O consenso do mercado é de que a Selic encerrará 2026 em 12% ao ano, com cortes graduais. A dúvida é se o Banco Central conseguirá manter o ritmo de afrouxamento caso o petróleo e o câmbio voltem a pressionar os preços. A ata da próxima reunião do Copom, prevista para agosto, deve trazer mais clareza sobre a estratégia.
Para o investidor, o momento é de cautela. “A renda fixa ainda oferece taxas atrativas, mas quem está em renda variável deve buscar empresas com fundamentos sólidos e baixo endividamento”, recomenda o estrategista de um banco de investimentos.



