O governo federal anunciou um pacote de estímulos de R$ 128 bilhões para impulsionar a economia, mas o efeito sobre o consumo deve ser limitado devido ao elevado endividamento das famílias e à manutenção de juros altos. A conclusão é de um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Endividamento recorde das famílias brasileiras
De acordo com o Ipea, o endividamento das famílias atingiu 52,3% da renda acumulada nos últimos 12 meses, o maior patamar da série histórica. Esse nível recorde reduz a capacidade de consumo, pois grande parte da renda é comprometida com o pagamento de dívidas anteriores.
O estudo aponta que, mesmo com a injeção de recursos, as famílias tendem a priorizar a redução do endividamento em vez de novos gastos. "O consumidor está cauteloso e prefere quitar débitos do que assumir novas compras", afirma a pesquisadora do Ipea, Maria Silva.
Juros altos e crédito caro
A taxa básica de juros, a Selic, permanece em 14,25% ao ano, um dos níveis mais elevados do mundo. Isso encarece o crédito e desestimula o consumo financiado. Segundo o Banco Central, as concessões de crédito para pessoas físicas caíram 3,2% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025.
O economista-chefe de uma consultoria, Carlos Oliveira, explica que "os juros altos anulam parte do efeito dos estímulos, pois o custo do crédito continua proibitivo para grande parte da população".
Impacto setorial dos estímulos
O pacote de R$ 128 bilhões inclui medidas como antecipação do 13º salário, liberação de saques do FGTS e ampliação do Bolsa Família. No entanto, o Ipea estima que o impacto no consumo será de apenas 0,5% do PIB em 2026, bem abaixo do potencial total dos estímulos.
Setores como comércio varejista e serviços podem ter um alívio temporário, mas a recuperação sustentável depende da queda dos juros e do desendividamento das famílias. "Sem uma redução significativa da taxa Selic, os estímulos terão efeito limitado", conclui o estudo.



