Os edifícios de uso misto estão ganhando cada vez mais espaço nas cidades brasileiras. Esses empreendimentos, que combinam unidades residenciais, comerciais e de serviços em um mesmo espaço, respondem a uma demanda crescente por praticidade, mobilidade e sustentabilidade urbana.
O que são edifícios de uso misto?
Edifícios de uso misto são projetos que integram diferentes funções — como moradia, trabalho, lazer e consumo — em um único edifício ou complexo. Diferentemente dos empreendimentos tradicionais, que segregam usos, esses edifícios buscam criar ambientes mais dinâmicos e autossuficientes, reduzindo a necessidade de deslocamentos e promovendo a vitalidade urbana.
Segundo especialistas do setor imobiliário, a tendência reflete uma mudança no comportamento dos consumidores, que valorizam cada vez mais a conveniência de ter serviços essenciais próximos à residência. “O morador urbano moderno quer otimizar seu tempo. Ter um mercado, uma academia ou um escritório no mesmo prédio é um diferencial competitivo”, afirma Carlos Alberto de Oliveira, presidente do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP).
Benefícios para as cidades
Além de atender às necessidades individuais, os edifícios de uso misto trazem vantagens coletivas. Eles contribuem para a redução do tráfego veicular, já que diminuem a distância entre moradia e trabalho, e incentivam o uso de transporte público e modais ativos, como bicicletas e caminhadas. Um estudo do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) aponta que empreendimentos de uso misto podem reduzir em até 30% as emissões de carbono associadas ao deslocamento diário.
Outro benefício é a segurança urbana. A presença constante de pessoas em diferentes horários — moradores, trabalhadores e clientes — inibe a criminalidade e promove a sensação de segurança. “Quando um edifício tem lojas abertas até tarde e moradores circulando, a rua se torna mais viva e segura”, explica a arquiteta urbanista Raquel Rolnik, professora da Universidade de São Paulo (USP).
Exemplos no Brasil
No Brasil, diversas cidades já adotam esse modelo. Em São Paulo, o bairro da Vila Olímpia concentra vários empreendimentos que mesclam torres residenciais e corporativas com galerias comerciais e áreas de lazer compartilhadas. No Rio de Janeiro, o projeto Porto Maravilha inclui edifícios de uso misto como parte da revitalização da zona portuária. Em Belo Horizonte, o complexo Vila do Farol combina apartamentos, lojas e escritórios em uma área de 40 mil metros quadrados.
Dados da consultoria imobiliária CBRE indicam que, entre 2020 e 2025, o número de lançamentos de empreendimentos de uso misto nas capitais brasileiras cresceu 45%. A expectativa é que essa tendência se intensifique com a aprovação de novos planos diretores que incentivam a ocupação mista, como o revisado em São Paulo em 2024.
Desafios e perspectivas
Apesar dos benefícios, a implantação de edifícios de uso misto enfrenta desafios. Questões como a compatibilidade entre usos residenciais e comerciais — especialmente em relação ao ruído e à circulação de estranhos — exigem projetos arquitetônicos cuidadosos e gestão condominial eficiente. Além disso, o custo desses empreendimentos costuma ser mais elevado, o que pode limitar o acesso a faixas de renda mais baixas.
Para o futuro, especialistas apontam que a tendência é de expansão, especialmente em áreas centrais e próximas a corredores de transporte público. “O conceito de cidade de 15 minutos, onde o morador encontra tudo o que precisa a uma curta caminhada de casa, está diretamente ligado aos edifícios de uso misto. Eles são peça-chave para uma urbanização mais sustentável e humana”, conclui Raquel Rolnik.



