No Rio Grande do Sul, apenas um quarto do esgoto gerado recebe tratamento adequado. Para cumprir a meta do Marco Legal do Saneamento de tratar 90% do esgoto até 2033, o estado precisa construir aproximadamente 18 mil quilômetros de novas redes de coleta — distância equivalente a uma viagem entre Porto Alegre e Tóquio, no Japão.
Atualmente, 86% da população gaúcha tem acesso à água tratada, mas a coleta de esgoto atende apenas 34% dos moradores. Do volume total de esgoto gerado, somente 25% passa por tratamento antes de retornar ao meio ambiente. O atraso é resultado de décadas de investimentos insuficientes, segundo especialistas.
O caminho do esgoto e os riscos da falta de tratamento
Após a descarga, o ideal é que a água siga por tubulações subterrâneas até uma estação de tratamento. Lá, grades retiram resíduos descartados incorretamente, como papel higiênico, cotonetes e absorventes. Bactérias consomem a matéria orgânica ao longo de aproximadamente 90 horas, até que o efluente possa ser devolvido ao meio ambiente. No entanto, milhões de gaúchos ainda não contam com esse sistema; o esgoto acaba sendo lançado diretamente em arroios, rios ou infiltrando no solo, contaminando a água e aumentando o risco de doenças.
Impactos na saúde e no desenvolvimento
A principal doença associada à falta de saneamento é a diarreia, muitas vezes subnotificada, segundo médicos ouvidos pela reportagem. Outras enfermidades incluem hepatite A, leptospirose e infecções por vírus, bactérias e parasitas. Crianças são especialmente afetadas, com comprometimento do desenvolvimento infantil e aumento de faltas escolares.
Desafios no interior e percepção sobre água de poço
Em comunidades rurais, a ausência de rede de coleta é ainda mais crítica. Muitos moradores recorrem a poços e fossas individuais e acreditam que a água de poço tem melhor qualidade. A diarista Carla Rodrigues, moradora do interior de Guaíba, afirma: "Realmente é 100% melhor" em comparação à água tratada, que considera ter gosto de produtos químicos. No entanto, o coordenador da Vigilância em Saúde de Guaíba, Fábio da Costa, alerta: "Nós identificamos, sim, a presença de micro-organismos relacionados à contaminação do solo" em poços rasos, podendo causar hepatite A, leptospirose e infecções gastrointestinais.
Benefícios econômicos e ambientais do saneamento
O esgoto sem tratamento reduz o oxigênio disponível nos rios, compromete a vida aquática e eleva os custos de tratamento da água para abastecimento. Um estudo do Instituto Trata Brasil estima que, no Rio Grande do Sul, cada R$ 1 investido em saneamento gera R$ 4,80 de retorno para a sociedade. Até 2033, a expansão do serviço pode representar economia de R$ 921 milhões em saúde, ganhos de produtividade de R$ 23 bilhões, valorização imobiliária de quase R$ 2 bilhões e impacto positivo de R$ 3,5 bilhões no turismo.
"Muitas vezes o saneamento é visto como algo que vai quebrar o pavimento e atrapalhar o trânsito. É algo que não dá voto", resume a presidente do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto. O desafio é fazer a sociedade enxergar a infraestrutura subterrânea que influencia saúde, economia, educação e desenvolvimento urbano.
Soluções em andamento
Para acelerar as obras, a Corsan criou em Esteio um Parque de Infraestrutura e Inovação, com fábrica de tubos, usina de asfalto, laboratório de solos e produção de insumos. O diretor executivo Victor Hugo Barros Gabriel afirma: "São investimentos que chegam na ordem de 15 bilhões de reais na parte de saneamento básico. A gente trouxe uma tecnologia robusta, inédita no Brasil. Somos pioneiros no país no que tange esse parque tecnológico."
O especial "O Futuro é Básico", da RBS TV, aborda em profundidade os desafios e soluções para a universalização do saneamento no estado.



