O petróleo Brent, referência internacional, disparou nesta quarta-feira e ultrapassou os US$ 94 por barril, impulsionado por novos ataques entre os Estados Unidos e o Irã. O conflito elevou o temor de uma interrupção no fornecimento global da commodity, especialmente vinda do Oriente Médio.
Ataques elevam tensão geopolítica
Os preços do petróleo aceleraram a alta após relatos de que forças dos EUA realizaram ataques aéreos contra instalações iranianas na Síria, em retaliação a um ataque com drones que matou um contratante americano. O Irã, por sua vez, prometeu responder com força. O barril do Brent fechou em alta de 4,2%, a US$ 94,25, maior nível desde novembro de 2022.
Segundo analistas do Bank of America, a escalada do conflito pode reduzir a oferta de petróleo iraniano, que atualmente produz cerca de 2,5 milhões de barris por dia. "Qualquer interrupção significativa na produção do Irã pode elevar os preços para US$ 100 ou mais", alertou o banco em nota a clientes.
Impacto nos mercados financeiros
A alta do petróleo também pressionou as bolsas mundiais. O índice S&P 500 caiu 1,3%, enquanto o Ibovespa recuou 0,8%, refletindo o receio de que o aumento dos custos de energia alimente a inflação global. "O mercado está reagindo ao risco de uma guerra mais ampla, que pode desestabilizar toda a região", disse o economista-chefe do Goldman Sachs, Jan Hatzius.
No Brasil, a Petrobras ainda não anunciou reajuste nos combustíveis, mas a defasagem em relação ao mercado internacional já ultrapassa 15% na gasolina e 20% no diesel, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).
Histórico de tensões
As relações entre EUA e Irã vêm se deteriorando desde 2018, quando Washington retirou-se do acordo nuclear e impôs sanções. Nos últimos meses, ataques a navios petroleiros no Golfo Pérsico e a aproximação do Irã da Rússia elevaram as tensões. O novo episódio pode levar a uma resposta militar coordenada, aumentando a volatilidade dos preços.
Especialistas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) avaliam que o Irã pode usar seus aliados no Iêmen e no Líbano para atacar infraestrutura petrolífera saudita ou dos Emirados Árabes. "O risco de interrupção no Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial, é real", afirmou o diretor do CSIS, Jon Alterman.
Perspectivas para o curto prazo
Para os próximos dias, a tendência é de continuidade da alta, caso não haja sinais de desescalada. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e seus aliados, liderados pela Arábia Saudita, mantêm cortes na produção de 2 milhões de barris por dia até o fim de 2023, o que já sustenta os preços elevados.
O secretário-geral da Opep, Haitham al-Ghais, declarou que o grupo monitora a situação de perto e está pronto para agir caso haja desabastecimento. "Estamos comprometidos com a estabilidade do mercado", disse, em comunicado. No entanto, a capacidade ociosa da Opep é limitada, principalmente da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes.
Reação dos governos
O presidente dos EUA, Joe Biden, autorizou os ataques como resposta ao ataque com drones que matou um americano. A Casa Branca afirmou que não busca conflito com o Irã, mas agirá para proteger seus interesses. O Irã, por sua vez, classificou os ataques como "violação do direito internacional" e prometeu vingança.
Na Europa, líderes pediram moderação. O alto representante da União Europeia para Política Externa, Josep Borrell, conclamou ambas as partes a evitar uma escalada. "A região já está instável demais", disse.
Impacto no consumidor brasileiro
Se a alta do petróleo se mantiver, o consumidor brasileiro pode sentir no bolso. A gasolina e o diesel já acumulam altas de 8% e 12% no ano, respectivamente, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP). O economista da FGV, André Braz, estima que um aumento de 10% nos combustíveis eleva a inflação em 0,3 ponto percentual.
"O governo precisa avaliar se segura os preços ou repassa, mas qualquer decisão terá impacto fiscal ou inflacionário", afirmou Braz. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que acompanha a situação e que a política de preços da Petrobras será mantida.



