A Huawei Technologies Co., gigante chinesa conhecida por smartphones e infraestrutura 5G, está expandindo silenciosamente seu papel na transição energética global. No Brasil, a empresa participa de um dos maiores projetos de armazenamento de energia da América Latina, no arquipélago de Fernando de Noronha, que deve aliviar a pressão sobre a rede elétrica local, atualmente dependente de diesel trazido por barco.
Projeto em Fernando de Noronha
O arquipélago, cercado por águas azul-turquesa e lar de cerca de 3 mil moradores, recebe aproximadamente 120 mil visitantes por ano, o que sobrecarrega sua rede elétrica isolada. A instalação de um sistema de armazenamento em baterias, com fornecimento da Huawei, deve reduzir a dependência de combustível fóssil. A iniciativa faz parte de uma parceria com a Aggreko para desenvolver o maior projeto com baterias do Brasil na Amazônia.
Huawei Digital Power: crescimento e diversificação
O braço de energia limpa da Huawei, a Huawei Digital Power Technology Co., faturou mais de US$ 11 bilhões no ano passado, ainda uma fração dos US$ 126 bilhões de receita total da controladora. Em escala, aproxima-se da divisão de energia da Tesla e da Sungrow Power Supply Co., ambas com vendas de cerca de US$ 13 bilhões em 2025. Enquanto a receita total da Huawei cresceu apenas 2% em 2024, o ritmo mais lento em três anos, a unidade de energia cresceu a dois dígitos.
Sanções dos EUA aceleraram expansão
Desde que os EUA impuseram sanções abrangentes em 2019, os equipamentos de rede e smartphones da Huawei foram barrados em grande parte do Ocidente. A empresa saiu do top 5 mundial de smartphones. Segundo William Kirby, professor de Harvard, “a expansão para energia limpa e setores correlatos é uma guinada cuja escala e urgência foram fortemente aceleradas pelas sanções americanas”. Ele acrescenta: “Com trilhões de dólares fluindo para a transição energética global, isso faz muito sentido do ponto de vista estratégico.”
Oportunidade global e concorrência
Os países gastaram US$ 2,3 trilhões em tecnologias limpas em 2024, mais que o dobro de 2020, segundo a BloombergNEF. Margaret Jackson, senior associate do Center for Strategic and International Studies, afirma: “Há uma enorme oportunidade de negócios.” A Huawei acumula patentes no setor desde 2010, quando registrou um sistema de controle para otimizar a produção de energia solar. Em 2013, lançou o inversor string, um produto disruptivo que a tornou a maior fabricante de inversores solares do mundo em 2015, posição mantida até hoje.
Tentativa de venda e desafios
A Huawei tentou vender a unidade de energia para a CATL, maior fabricante de baterias do mundo, mas as negociações fracassaram por divergências de valuation. A Huawei buscava ao menos 200 bilhões de yuans (US$ 29,5 bilhões), enquanto a CATL avaliava a operação em cerca de 150 bilhões de yuans. Um porta-voz da CATL negou intenção de adquirir o negócio. A unidade também enfrenta ventos políticos contrários: a Huawei deixou o mercado americano de inversores em 2019 e, neste ano, a Comissão Europeia introduziu restrições de financiamento para projetos que usem inversores de “fornecedores de alto risco”, incluindo a Huawei.
Presença no Brasil
No Brasil, a Huawei Digital Power fechou contratos de armazenamento em baterias capazes de abastecer cerca de 90 mil residências por dia e forneceu mais inversores solares do que qualquer concorrente, segundo Roberto Valer, diretor de tecnologia da Huawei Digital Power Brasil. A empresa também começou a vender hardware para estações de recarga de veículos elétricos e estuda construir uma fábrica no país, embora o alto custo da manufatura local seja um obstáculo. Valer afirmou que a empresa não está preocupada com riscos geopolíticos: “Não temos problema algum aqui no Brasil.” O mercado latino-americano de armazenamento de energia deve crescer 8% ao ano até 2034, segundo a Wood Mackenzie.



