Grande Fedor de 1858: Como o mau cheiro do Tâmisa revolucionou o esgoto de Londres
Grande Fedor de 1858: Mau cheiro do Tâmisa revolucionou esgoto

Em 1858, Londres enfrentou o chamado Grande Fedor (The Great Stink), quando o rio Tâmisa tornou-se uma cloaca a céu aberto devido ao calor recorde e à falta de chuva. A população sofria com o mau cheiro insuportável, e doenças como cólera, disenteria e tifo se espalhavam rapidamente. O fedor era tão intenso que o Parlamento britânico precisou interromper suas atividades, e os parlamentares fugiram para o campo. Esse evento catastrófico forçou a aprovação de um ambicioso projeto de saneamento que transformou a infraestrutura da cidade.

O calor extremo e o colapso do Tâmisa

Durante semanas, as temperaturas em Londres permaneceram acima dos 30°C, sem uma gota de chuva. O nível do Tâmisa caiu drasticamente, expondo margens cobertas de fezes e resíduos em decomposição. A cidade ficou envolta em uma nuven sufocante. De acordo com um jornal local da época, 'quem já respirou esse mau cheiro uma vez nunca o esquecerá e pode se considerar feliz se sobreviver a ele'. A população mais abastada fugiu, enquanto os que ficaram embebiam cortinas em cloreto de cal e pressionavam lenços contra o nariz ao sair às ruas.

Um sistema de esgoto ultrapassado

Entre 1800 e 1850, a população de Londres dobrou, chegando a 2,5 milhões de habitantes, tornando-a a maior metrópole do mundo. No entanto, o sistema de esgoto era obsoleto e não acompanhava o crescimento. Os canos despejavam todo o esgoto diretamente no Tâmisa. A introdução de vasos sanitários com descarga entre os cidadãos mais ricos agravou o problema, pois os dejetos iam diretamente para o rio. Antes, coletores noturnos esvaziavam as fossas sépticas, mas agora o rio devolvia os resíduos durante as cheias. Charles Dickens descreveu a situação em 'A Pequena Dorrit': 'Pelo coração da cidade corria de um lado para outro um canal de esgoto mortal, em vez de um belo e fresco rio'.

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Doenças e a teoria de John Snow

Durante o Grande Fedor, doenças como cólera, tifo e disenteria se espalharam. Embora muitos acreditassem que a doença era transmitida pelo ar (miasmas), o médico John Snow já havia suspeitado que a água contaminada era a causa. Em 1854, no bairro do Soho, cerca de 500 pessoas morreram após fossas transbordarem. Snow mandou remover a alavanca de uma bomba de água, interrompendo a propagação da cólera. Ele investigou outras bombas e confirmou a relação, mas sua teoria não foi aceita na época. Snow morreu em junho de 1858, pouco antes do pico do fedor.

A decisão política e o projeto de Bazalgette

O órgão de obras públicas de Londres pressionava há anos pela modernização da rede de esgoto, mas o Parlamento negava recursos. A situação mudou quando os próprios parlamentares sentiram o fedor no Palácio de Westminster, às margens do Tâmisa. Impossibilitados de governar, eles aprovaram o financiamento em apenas 18 dias, destinando 3 milhões de libras para a obra. O engenheiro Joseph Bazalgette foi encarregado do projeto. Ele projetou uma rede de túneis subterrâneos com cerca de 1,8 mil quilômetros de extensão para captar os resíduos das ruas e porões, em vez de despejá-los no Tâmisa. Além disso, construiu diques e avenidas à beira-rio que ocultavam os coletores e protegiam a cidade contra enchentes.

O legado do sistema vitoriano

Bazalgette construiu duas gigantescas estações de bombeamento, como a de Abbey Mills, concluída em 1868 e conhecida como 'Catedral do Esgoto' por sua arquitetura. O projeto foi finalizado em 1875, criando o sistema de esgoto mais moderno do mundo na época. O engenheiro dimensionou a capacidade para uma população 50% maior, cerca de 4,5 milhões de habitantes. Com isso, a cólera desapareceu de Londres. Um século e meio depois, quase 9 milhões de pessoas vivem na cidade e ainda utilizam grande parte da infraestrutura vitoriana, que recebe produtos modernos como absorventes, fraldas e restos de comida. Em 2025, o túnel Thames Tideway, com 25 quilômetros, foi inaugurado para aliviar o sistema e evitar um novo Grande Fedor.

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