Conselho aprova aumento de etanol na gasolina de 30% para 32%
Etanol na gasolina sobe de 30% para 32%

O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%, com comercialização obrigatória a partir de 1º de agosto. A decisão foi anunciada em 14 de julho, terá validade inicial de 180 dias e poderá ser prorrogada por igual período.

Segundo o conselho, a medida considera a volatilidade do mercado internacional de petróleo e combustíveis, em um momento em que o país enfrenta custos mais altos dos combustíveis fósseis por causa da escalada da guerra no Oriente Médio. A proposta já vinha sendo discutida por integrantes do governo nos últimos meses.

MPF pede suspensão da nova mistura

No fim de julho, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação civil pública para suspender o aumento do teor de etanol. Para o MPF, os testes realizados até aqui não foram conclusivos e os impactos ambientais da mudança não foram devidamente considerados.

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A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) também defendeu que mais estudos fossem feitos antes da implementação. A entidade afirma ser favorável aos biocombustíveis, mas defende rigor técnico. "Nós temos discutido, na verdade, é que o aumento da mistura deve ser precedido de testes. Esse é o único ponto da Anfavea", disse Igor Calvet, presidente da entidade.

Por que a gasolina com 32% de etanol preocupa

Especialistas alertam que veículos antigos ou sem calibração específica podem apresentar aumento no consumo, corrosão e desgaste de componentes. O etanol anidro, mesmo após a desidratação na usina, é capaz de absorver água do ambiente e levá-la para o motor. A presença de água pode afetar componentes metálicos que não foram projetados para essa condição e, combinada ao etanol, aumenta a condutividade elétrica, favorecendo a corrosão eletroquímica.

Segundo Rogério Gonçalves, engenheiro e diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), as principais avarias são corrosão ou desgaste no sistema de injeção. "Isso pode provocar falhas de funcionamento, aumento das emissões e do consumo e até danos mais graves, principalmente na bomba de combustível e nos injetores", explica.

A lista de componentes que entram em contato direto com o combustível inclui tanque, boia, bomba de combustível, linhas metálicas ou plásticas, bico injetor, câmara de combustão, pistões e vedações.

O que dizem CNPE e Unica

O CNPE refutou a possibilidade de danos aos automóveis. Em nota, o colegiado afirmou que foram analisados desempenho, dirigibilidade, partida a frio, consumo e emissões, tanto em laboratório quanto em condições reais de uso. De acordo com os resultados, o E32 apresentou comportamento equivalente ao de misturas com menor teor de etanol, sem impactos relevantes, inclusive em motores não flex.

A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirmou que o setor tem capacidade para atender à demanda adicional. Segundo a entidade, a necessidade extra seria de cerca de 1 bilhão de litros por ano em relação ao E30, enquanto a produção prevista para a safra pode crescer cerca de 4 bilhões de litros, impulsionada pelo etanol de milho e pelas usinas de cana. A Unica estima ainda que a medida pode reduzir a importação de aproximadamente 800 milhões de litros de gasolina por ano.

O programa Combustível do Futuro, com estudos do Instituto Mauá de Tecnologia, embasou a proposta. "Além dos ganhos em segurança energética e competitividade, o E32 reforça uma das principais vantagens estratégicas do Brasil: a capacidade de expandir o uso de combustíveis renováveis em larga escala", afirmou Evandro Gussi, presidente da Unica.

Riscos nos carros não flex

O principal desafio é a compatibilidade dos materiais, sobretudo em veículos importados ou mais antigos, projetados para rodar apenas com gasolina e desenvolvidos para concentrações menores de etanol. O etanol tem menor poder calorífico que a gasolina: enquanto 1 kg de etanol hidratado fornece cerca de 6.300 kcal, 1 kg de gasolina A fornece cerca de 10.400 kcal. Por isso, o consumo tende a aumentar tanto em modelos flex quanto em veículos exclusivamente a gasolina.

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Marcos Passos, gerente de engenharia da PHINIA, explica que aditivos podem ajudar em situações específicas, mas não tornam compatível com altos teores de etanol um veículo que não foi projetado para isso. "Ligar o motor e aguardar entre 10 e 30 segundos antes de sair; evitar acelerar logo após a partida; dirigir suavemente nos primeiros minutos e usar o carro regularmente", aconselha.

Sinais de que o motor está sofrendo

Os primeiros sintomas costumam surgir antes de danos mais sérios: dificuldade de partida com motor frio, marcha lenta instável, aumento perceptível do consumo, perda de desempenho, luz da injeção eletrônica acesa, cheiro de combustível, vazamentos e engasgos. Em carros antigos, as revisões devem observar corrosão em conexões metálicas, mangueiras endurecidas ou rachadas e resíduos no filtro de combustível. O etanol também desprende sujeira acumulada no fundo do tanque, o que pode entupir o filtro mais rapidamente.

Fábio Rhoden, sócio-proprietário da oficina Flacht Motorsport & Classic Center, diz que borrachas e mangueiras são os componentes mais suscetíveis. "Além disso, a bomba de combustível e os bicos injetores podem oxidar ou travar, porque o álcool facilita a corrosão dessas partes metálicas e plásticas." O risco é maior em veículos de 20 ou 30 anos, carburados ou com injeção simples, que não ajustam sozinhos a mistura.

Manutenção e peças mais caras

Vinicius Giungi, da Ben Imports, afirma que os defeitos mais comuns em veículos importados premium são entupimento de bicos injetores, desgaste prematuro de bombas de combustível, ressecamento de mangueiras e vedações, oxidação de conectores e baixa vida útil das velas. Os preços pesam: um bico injetor para BMW 320, fabricada entre 2012 e 2019, sai a partir de R$ 1.256 cada, sem contar mão de obra; a bomba de combustível de um Range Rover Evoque custa mais de R$ 1.900.

As velas de platina ou irídio podem melhorar a confiabilidade da ignição em motores mais antigos, desde que homologadas e instaladas conforme o grau térmico, a folga dos eletrodos e o torque. "Uma vela muito fria pode acumular resíduos e provocar falhas, enquanto uma vela muito quente pode favorecer superaquecimento e pré-ignição", alerta Giungi.

O que o consumidor deve fazer

Na maioria dos veículos flex, não há necessidade de mudança na rotina. Para os demais, especialistas recomendam atenção nos primeiros dias. Se o carro apresentar dificuldade de partida pela manhã, marcha lenta irregular ou consumo maior, é preciso procurar assistência técnica especializada ou um mecânico de confiança para avaliar o sistema de alimentação e ignição.