No ambiente corporativo, características como hiperfoco, criatividade intensa e capacidade de multitarefa são frequentemente celebradas como competências desejáveis. No entanto, muitas dessas características podem ser manifestações de transtornos mentais, como Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e Transtorno do Espectro Autista (TEA). Um artigo recente no Valor Econômico discute como a linha entre transtorno e competência é tênue e muitas vezes ignorada.
A romantização de sintomas
Segundo a coluna, há uma tendência a romantizar sintomas de transtornos mentais, transformando-os em qualidades profissionais valorizadas. Por exemplo, a impulsividade pode ser vista como 'tomada de decisão rápida', enquanto a dificuldade de concentração é rebatizada como 'capacidade de realizar múltiplas tarefas'. Essa abordagem, embora pareça positiva, pode mascarar a necessidade de tratamento e suporte adequados.
O artigo cita a psicóloga organizacional Ana Paula, que afirma: 'Muitos profissionais são elogiados por comportamentos que, na verdade, são sintomas de condições que precisam de atenção. Isso cria um ambiente onde as pessoas se sentem pressionadas a manter essas características, mesmo que isso prejudique sua saúde mental'.
O impacto no bem-estar dos funcionários
A confusão entre transtorno e competência pode levar a consequências graves. Funcionários que não recebem o suporte necessário podem sofrer de burnout, ansiedade e depressão. Além disso, a falta de conscientização sobre saúde mental no trabalho perpetua estigmas e dificulta a busca por ajuda.
Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que a depressão e a ansiedade custam à economia global cerca de US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade. No Brasil, estima-se que 9,3% da população tenha transtornos de ansiedade, e 5,8% sofram de depressão. Esses números ressaltam a importância de abordar a saúde mental no ambiente de trabalho de forma adequada.
Como diferenciar e agir
Para evitar essa confusão, especialistas recomendam que as empresas promovam uma cultura de saúde mental, com programas de conscientização e acesso a profissionais qualificados. É essencial que líderes e gestores sejam treinados para identificar sinais de transtornos e oferecer suporte sem julgamento.
O artigo conclui que a verdadeira competência profissional não está em mascarar sintomas, mas em reconhecer as próprias limitações e buscar um ambiente de trabalho saudável e inclusivo. A valorização de características associadas a transtornos mentais pode ser prejudicial tanto para o indivíduo quanto para a organização.



