SpaceX e Starlink Mobile: Impacto nas teles brasileiras
SpaceX e Starlink Mobile: impacto nas teles brasileiras

O IPO (Oferta Pública Inicial) da SpaceX e seu pedido de licença de SMP (Serviço Móvel Pessoal) junto à Anatel colocaram o Starlink Mobile no centro das atenções das companhias de telecomunicações no Brasil.

Em relatório da XP Investimentos, divulgado na quinta-feira (11), os analistas apontam que esse cenário mostra uma maior liberdade de atuação e novos caminhos jurídicos para a empresa de Elon Musk em solo nacional, mas que a tecnologia de conexão direta via satélite para smartphones atua de forma complementar, não representando um perigo financeiro imediato para as operações da TIM (TIMS3) e da Vivo (VIVT3).

“A tecnologia ainda está longe de entregar capacidade, qualidade de serviço e cobertura indoor comparáveis às redes móveis urbanas”, diz o relatório.

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Adaptação regulatória

A análise da XP Investimentos explica que o ambiente regulatório brasileiro já se adaptou a essa nova realidade, uma vez que o novo Regulamento Geral de Telecomunicações permite formalmente a outorga de SMP baseada em satélite.

No momento, a Anatel examina a cessão de direitos das radiofrequências em banda S da EchoStar para a companhia da SpaceX, movimentação que materializa essa autonomia comercial.

Essa reconfiguração regulatória acompanha um contexto internacional em que a EchoStar investiu US$ 17 bilhões em espectro, iniciativa que visa dar à SpaceX o domínio de toda a cadeia produtiva de telecomunicações.

Caso a agência aprove a licença de SMP independente, a Starlink vai ser capaz de comercializar o serviço diretamente ao consumidor final sem precisar de uma operadora local como intermediária, mudando estruturalmente seu poder de barganha.

Até o momento, nenhuma operadora brasileira firmou alianças com a companhia. Concorrentes como a Claro e a própria TIM realizam testes com outras provedoras do mesmo tipo, como a AST SpaceMobile e a Lynk, indicando uma preferência por pulverizar seus fornecedores tecnológicos.

Gargalos técnicos

O ecossistema tecnológico do Direct-to-Cell funciona por meio de constelações de satélites LEO (órbita baixa), que orbitam em altitudes de 340 a 600 quilômetros, reduzindo o tempo de resposta do sinal para marcas entre 20 e 40 milissegundos, patamar equivalente ao das redes celulares comuns de voz e dados.

Os analistas da XP Investimentos ressaltam que, mesmo com um único equipamento cobrindo uma área continental superior a 1 milhão de quilômetros quadrados (o que confere forte apelo para o agronegócio e regiões interioranas isoladas), o modelo esbarra em barreiras severas de capacidade de espectro.

Diferente da infraestrutura terrestre operada pela TIM e pela Vivo, que reaproveita faixas de transmissão em pequenas distâncias célula por célula de maneira isolada, os satélites precisam fracionar a mesma largura de banda simultaneamente entre todos os consumidores situados sob a sua imensa projeção geográfica, segundo os analistas.

“Na prática, o D2C da Starlink é capaz de suportar SMS, voz básica e dados de baixa largura de banda em áreas com poucos usuários simultâneos”, aponta o documento.

Em grandes metrópoles populosas, os analistas explicam que o sistema perde eficiência por falta de espectro disponível face à alta demanda, somado ao fato de que as ondas espaciais perdem força considerável ao atravessar barreiras físicas de prédios e residências, onde se concentra a maior parcela do consumo diário de internet.

Ainda, a XP Investimentos sinaliza que as limitações estruturais urbanas continuarão existindo mesmo com a chegada da segunda geração de satélites prevista para 2027, que trará antenas mais avançadas para estreitar os feixes de transmissão.

Riscos reais

Os analistas da XP Investimentos reiteram que a real ameaça de longo prazo para as companhias de telefonia brasileiras não está atrelada à substituição física das antenas urbanas, mas sim à reformulação dos canais de vendas.

Conforme o relatório, o principal ponto de vulnerabilidade entra na possibilidade de a Starlink utilizar as OEMs (fabricantes de equipamentos originais), tais como Apple, Samsung e Motorola, como parceiras de distribuição direta, inserindo componentes compatíveis com a frequência de 2 GHz (gigahertz) nas linhas de montagem dos aparelhos.

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Caso o recurso seja embutido nos sistemas operacionais como uma função nativa (como, por exemplo, o mecanismo de socorro da Apple estruturado pela Globalstar), a conexão via satélite vira uma ferramenta de fábrica do celular, com transações mediadas pelas lojas oficiais de aplicativos.

Os analistas afirmam que se esse cenário avançar, as operadoras serão obrigadas a enfrentar um desafio comercial focado na desintermediação e no distanciamento da sua base de assinantes, em vez de um impacto imediato no faturamento.

“No setor de telecomunicações, quem perde essa camada perde, ao longo do tempo, a capacidade de vender upgrades de planos, pacotes, venda cruzada de fibra, aparelhos subsidiados e serviços adicionais”, diz o relatório.

Além disso, eles ressaltam que fora as fronteiras agrícolas, essa modalidade ganha força em municípios interioranos de topografia mais complexa ou áreas periféricas de cobertura intermitente, a exemplo de Petrópolis ou de certas microrregiões do estado de São Paulo, onde o consumidor privilegia a garantia de sinal contínuo em relação à velocidade de download.

O documento da XP entende que os efeitos econômicos de curto prazo são marginais e não modificam as projeções financeiras ou a recomendação de investimentos para a TIM e para a Vivo, que seguem amparadas nos serviços móveis urbanos de alto valor.