A Lojas CEM, rede varejista que opera sem site e sem aplicativo, registrou uma desaceleração no crescimento de suas vendas no segundo trimestre de 2026, mas conseguiu impulsionar seus lucros por meio de operações de crédito ao consumidor. A estratégia de focar em financiamento próprio, em vez de expandir o comércio eletrônico, tem gerado receitas financeiras que já representam 60% do faturamento total da empresa.
Resultados financeiros do trimestre
No período de abril a junho, a receita líquida da Lojas CEM somou R$ 2,1 bilhões, um aumento de 8% em comparação ao mesmo trimestre de 2025. No entanto, esse crescimento é inferior ao registrado nos trimestres anteriores, que vinham apresentando expansão de dois dígitos. O lucro líquido, por outro lado, saltou 35%, para R$ 1,2 bilhão, impulsionado principalmente pelas receitas com juros de crédito ao consumidor.
“Estamos focados em rentabilidade, não em volume. O crédito é o nosso motor”, afirmou o presidente da rede, Carlos Eduardo Martins, em entrevista ao Valor. A empresa não possui canal de vendas online, concentrando-se em suas 450 lojas físicas, espalhadas por 12 estados brasileiros.
Estratégia de crédito como diferencial
A Lojas CEM oferece financiamento próprio para seus clientes, com taxas de juros que variam entre 2% e 5% ao mês, dependendo do perfil de crédito. Essa operação financeira respondeu por 60% da receita total no segundo trimestre, ante 55% no mesmo período de 2025. A inadimplência, no entanto, preocupa: subiu de 4,2% para 5,1% no período, ainda dentro das metas da empresa.
Segundo Martins, a empresa não pretende lançar um site ou aplicativo no curto prazo. “Nosso cliente é de perfil mais tradicional, que prefere ir à loja. Não vemos demanda significativa por canal digital”, justificou. A decisão contrasta com a tendência do varejo brasileiro, que tem investido pesadamente em omnicanalidade.
Impacto no mercado e concorrência
A estratégia da Lojas CEM tem chamado a atenção de analistas. Para a consultoria Gouvêa Malls, a empresa consegue “ganhar dinheiro com juros” em um momento em que grandes varejistas como Magazine Luiza e Americanas enfrentam dificuldades com crédito. “Eles têm uma base de clientes fidelizada e um controle de risco mais rigoroso”, analisa o consultor Eduardo Yamashita.
No acumulado do primeiro semestre, a Lojas CEM registrou receita de R$ 4,0 bilhões, alta de 9% sobre o mesmo período de 2025, e lucro de R$ 2,3 bilhões, avanço de 30%. A empresa projeta para o ano um crescimento de vendas entre 8% e 10%, abaixo dos 15% de 2025, mas com margem líquida superior a 25%.
Desafios futuros
Especialistas apontam que a dependência de receitas financeiras pode ser arriscada em um cenário de alta da Selic. A taxa básica de juros, atualmente em 14,25% ao ano, pressiona o custo de captação da empresa. No entanto, a Lojas CEM afirma ter hedge natural, já que repassa os juros aos clientes. “Enquanto a inadimplência estiver controlada, o modelo é sustentável”, disse Martins.
A empresa também enfrenta desafios logísticos, com a entrega de produtos grandes, como móveis e eletrodomésticos, que representam 70% das vendas. A rede investiu R$ 150 milhões em dois novos centros de distribuição, em São Paulo e Minas Gerais, para reduzir prazos de entrega.
Para o segundo semestre, a Lojas CEM prevê a abertura de mais 20 lojas, todas em cidades de médio porte no interior do país. A empresa não planeja entrar no e-commerce, mantendo a estratégia de ser uma “loja de bairro” com forte apelo de crédito.



