O Brasil registrou em junho o maior volume de importações de pequenos valores da história, impulsionado pela Medida Provisória que isenta de imposto de importação compras internacionais de até US$ 50, a chamada MP das blusinhas. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que as importações de encomendas via Correios e empresas de courier somaram US$ 2,1 bilhões no mês, alta de 45% ante o mesmo período de 2025.
Recorde histórico e críticas da indústria
O valor é o maior já registrado em um único mês desde o início da série histórica, em 2000. A MP, editada em maio, zerou o imposto de importação para remessas de até US$ 50 entre pessoas físicas, mas manteve a cobrança de 17% de ICMS. A medida foi criticada por entidades da indústria nacional, que apontam concorrência desleal com produtos nacionais.
“A indústria brasileira não consegue competir com preços de produtos importados que não pagam impostos. Isso gera desemprego e fecha fábricas”, afirmou Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Segundo ele, a entidade já solicitou ao governo a revisão da MP, que tramita no Congresso Nacional.
Impacto no comércio e varejo
O recorde de importações também preocupa o varejo nacional. A Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop) estima que as vendas do comércio físico caíram 8% em junho na comparação com maio, reflexo direto do aumento das compras online internacionais. “O brasileiro está optando por comprar direto da China, sem pagar imposto, enquanto o lojista local paga uma carga tributária pesada”, disse Nabil Sahyoun, presidente da Alshop.
Dados do MDIC indicam que 78% das encomendas internacionais que entraram no Brasil em junho vieram da China, seguidas por Estados Unidos (12%) e Europa (5%). Os produtos mais importados foram eletrônicos, roupas e acessórios.
Governo defende medida e estuda ajustes
O governo federal defende a MP como forma de estimular o comércio eletrônico e beneficiar o consumidor. O Ministério da Fazenda informou que estuda ajustes na medida, como a criação de um cadastro de empresas de courier para evitar fraudes e a possibilidade de tributar compras acima de US$ 50 com alíquota reduzida.
“A MP trouxe benefícios ao consumidor, mas precisamos equilibrar com a proteção da indústria nacional. Estamos abertos ao diálogo”, afirmou o secretário de Comércio Exterior do MDIC, Herlon Brandão. A expectativa é que o Congresso vote a MP até setembro, podendo alterar os termos.
Reação do setor têxtil
O setor têxtil, um dos mais afetados, registrou queda de 12% na produção em junho ante maio, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). “É uma situação insustentável. As importações de roupas cresceram 60% em junho, enquanto nossas fábricas operam com capacidade ociosa”, disse Fernando Pimentel, presidente da Abit.
A entidade protocolou representação no Ministério da Justiça pedindo investigação de dumping, argumentando que produtos chineses são vendidos abaixo do custo de produção. O governo ainda não se manifestou sobre o pedido.
Perspectivas
Especialistas apontam que o recorde de importações deve se repetir nos próximos meses, caso a MP seja aprovada sem alterações. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que as importações de pequeno valor podem chegar a US$ 25 bilhões em 2026, ante US$ 15 bilhões em 2025. A indústria pressiona o Congresso para reduzir o limite de isenção para US$ 20 ou exigir contrapartidas, como a compra de insumos nacionais.



