Contratar um seguro pelo ChatGPT pode parecer algo distante, mas essa realidade já começou. A seguradora digital Pier anunciou recentemente o lançamento de um aplicativo integrado à plataforma da OpenAI. A novidade permite que os usuários consultem informações sobre produtos e iniciem o processo de cotação diretamente pela ferramenta de inteligência artificial.
Uma nova porta de entrada para o seguro
Camila Kataguiri, CEO da Pier, explica que a iniciativa surgiu naturalmente quando a OpenAI abriu a possibilidade de aplicativos dentro do ChatGPT. "O brasileiro já usa IA generativa para resolver questões do dia a dia, pesquisar, comparar e tomar decisões. Seguro também precisa fazer parte dessa conversa", afirma.
A iniciativa ocorre em um momento de forte avanço da IA generativa no Brasil. Dados de 2025 da OpenAI mostram que o Brasil está entre os três maiores mercados do ChatGPT no mundo, com cerca de 140 milhões de interações diárias. Nesse contexto, as seguradoras começam a enxergar as plataformas de IA como um novo canal de relacionamento e distribuição de produtos.
Pesquisa Bain: IA já está presente em 78% das seguradoras
O movimento da Pier não é isolado. Um levantamento da consultoria Bain & Company, compartilhado em primeira mão com o InfoMoney, revela que 78% das seguradoras que operam com seguros patrimoniais (como veicular e residencial) e de responsabilidade civil já utilizam inteligência artificial generativa em alguma medida. No entanto, apenas 4% conseguiram escalar a tecnologia de forma abrangente, incorporando-a consistentemente aos processos do negócio.
Aplicações da IA vão além do ChatGPT
Segundo a consultoria, a IA já é empregada em áreas como marketing, atendimento ao cliente, análise de riscos, desenvolvimento de produtos e gestão de sinistros. Em projetos mais avançados, a tecnologia tem potencial para elevar a produtividade em até 35%, especialmente quando aplicada em transformações de ponta a ponta.
Para Daniel Feldenheimer, sócio da Bain & Company, a inteligência artificial pode melhorar a experiência do cliente desde os primeiros contatos com a seguradora. "Você começa a ter IA para fazer a primeira interação com o cliente e combinar diferentes soluções dependendo da necessidade daquela pessoa", aponta.
Redução de barreiras e personalização
Camila Kataguiri, da Pier, destaca que a tecnologia pode ajudar a reduzir barreiras que afastam consumidores do mercado segurador. "Historicamente, contratar seguro envolve formulário longo, ligação, papelada e muita dúvida básica que trava a conversa antes mesmo dela começar. No ChatGPT, a pessoa começa explorando possibilidades, entendendo coberturas e chegando mais informada para a próxima etapa da jornada", salienta.
Na avaliação de Luís Henrique Fontes, diretor de tecnologia do Grupo MAG, a inteligência artificial pode tornar a recomendação de seguros mais aderente ao perfil de cada cliente. "A gente, através da IA, está lendo o perfil daquele possível futuro cliente, entendendo e trazendo para o corretor a melhor sugestão daquela solução", diz. Segundo o executivo, a estratégia segue o princípio de que "a IA ajuda a escolher, o humano decide e a empresa explica".
Ampliação do acesso e desafios de escala
Além de simplificar a contratação, a tecnologia ajuda a ampliar o acesso ao seguro. Fontes cita como exemplo produtos desenvolvidos para públicos específicos, como pessoas com doenças crônicas, que historicamente enfrentam mais dificuldades para contratar cobertura. A personalização tende a ganhar espaço à medida que as seguradoras conseguem analisar um volume maior de informações sobre hábitos, perfil e necessidades dos consumidores.
O desafio agora será transformar iniciativas ainda concentradas em projetos-piloto em modelos escaláveis capazes de gerar ganhos concretos para empresas e clientes. Segundo Feldenheimer, da Bain, a tendência é que os benefícios da inteligência artificial apareçam primeiro na experiência do segurado, antes mesmo de eventuais ganhos de preço. "Os clientes tendem a perceber essa transformação na velocidade de atendimento, na qualidade das interações e na resolução mais rápida dos processos", conclui.



