Lições de longevidade de gigantes brasileiras na Expert XP
Lições de longevidade de gigantes brasileiras na Expert XP

Em um país onde o curto prazo frequentemente dita o ritmo dos negócios, representantes de quatro dos maiores grupos empresariais do Brasil — JBS, Rede D'Or, Gerdau e Grupo Muffato — subiram ao palco da Expert XP para discutir o que realmente importa: como construir empresas que atravessam gerações sem perder relevância.

Painel de gigantes

No painel, mediado por Rafael Furlanetti, sócio-diretor institucional da XP, estiveram presentes Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS; Paulo Moll, CEO da Rede D'Or; André Gerdau, presidente do conselho da Gerdau; e Ederson Muffato, diretor do Grupo Muffato. A discussão revelou que, por trás dos balanços bilionários, a longevidade é fruto de uma disciplina quase obsessiva com a cultura e uma alocação de capital que não se deixa seduzir por modismos.

O 'Custo Brasil' e a resiliência

Para André Gerdau, que representa a quinta geração de uma companhia fundada em 1901, a longevidade não é um acidente, mas uma capacidade constante de reinvenção. "A maior característica de uma empresa de tantos anos é a resiliência, a capacidade de se adaptar e se reinventar", afirmou. O desafio, segundo ele, é manter essa agilidade em um setor intensivo em capital e sob pressão global. "Apesar do nosso negócio ser aço, a velocidade com que o negócio se adapta ao serviço e ao cliente é o grande segredo da longevidade", disse Gerdau.

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M&A vs. Greenfield: a estratégia de crescimento

O debate sobre alocação de capital expôs visões distintas. Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS, foi enfático na preferência por aquisições como motor de crescimento, citando a velocidade e a previsibilidade de caixa como diferenciais. "Nós preferimos fazer uma aquisição de uma companhia que já existe a começar uma nova frente de negócio porque já conhecemos o que estamos comprando e sabemos o potencial de geração de valor", disse.

Paulo Moll, CEO da Rede D'Or, defende um modelo híbrido. Embora a empresa tenha crescido via aquisições, o cenário atual tem aberto espaço para projetos greenfield em regiões carentes. "A empresa foi criada por meio de aquisições, mas nos últimos anos, temos feito mais greenfield [começar projetos do zero]", disse Moll. Ele explica que, por um lado, aquisições bem integradas são rápidas, porém há regiões do país carentes de hospitais de porte onde o retorno maior pode estar no greenfield. "Ainda que seja um investimento de mais longo prazo, existe uma vantagem de estar construindo um hospital do zero, com todos os fluxos e equipamentos versus adaptar prédios antigos e culturas diferentes", explicou.

Disrupção no varejo: bets e emagrecedores

Entre os desafios atuais, Ederson Muffato, diretor do Grupo Muffato, destacou como novos hábitos e tecnologias estão reconfigurando o consumo. Para ele, o varejo alimentar enfrenta hoje duas tendências poderosas: as apostas online e os medicamentos para perda de peso. Sobre o impacto das apostas, Muffato foi direto: "O fenômeno das apostas online, sem dúvida, é o nosso maior concorrente. Se parar para analisar, ele já é do tamanho do mercado do varejo alimentar no Brasil", disse.

Quanto às canetas emagrecedoras, o executivo vê uma mudança estrutural no mix de produtos. "Com o Mounjaro, estamos no começo da maior revolução no varejo alimentar do mundo", disse. Ele explica que as canetas emagrecedoras já provocam um trade-off de categorias, com a redução de algumas e o aumento das vendas de outras. E, com a redução dos preços dos medicamentos, o impacto no varejo alimentar e em outros setores, como o de saúde, deve ser ainda maior.

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De olho na mudança dos hábitos alimentares, a JBS está investindo em biotecnologia. "Sabemos que a alimentação das pessoas vai mudar. Por isso, o desenvolvimento de proteínas, aminoácidos e peptídeos é o grande foco dos nossos investimentos no momento, porque são pontos transformacionais no sistema da alimentação", disse Tomazoni. Na Rede D'Or, por outro lado, um dos grandes investimentos é em inteligência artificial, que já usa a tecnologia na ponta. "O médico não precisa mais digitar todas as informações no prontuário, a IA captura, preenche essas informações e ainda dá sugestões e apoio ao diagnóstico médico. Mas só de você liberar esse tempo de qualidade do médico para ter mais tempo com o paciente, já é uma revolução na qualidade do atendimento", disse Moll.

A sucessão e o papel do fundador

Em empresas com décadas de vida, é inevitável falar sobre sucessão. André Gerdau detalhou o processo de transição para um CEO que não fazia parte da família fundadora e destacou a importância de separar o conselho da operação. "Quando a empresa familiar muda para um CEO que não é da família, tem o risco da família continuar querendo operar. Neste caso, é importante entender que o conselho é sobre estratégia, pessoas e relações institucionais. Mas não deve mais tratar do dia a dia", disse.

Para o Grupo Muffato, que superou a perda trágica do fundador há 30 anos, o legado é a bússola. "Se fosse analisar o meu legado, o que eu quero deixar ao passar o bastão é a continuidade da cultura e dos valores da empresa, que o nosso fundador nos deixou", disse Muffato.

Ao final, o consenso entre os líderes foi claro: o sucesso de longo prazo no Brasil exige coragem para investir, disciplina para gerir o endividamento e, acima de tudo, a humildade de saber que, mesmo com décadas de história, a empresa deve continuar em constante aprendizado.