O home office no governo federal continua em expansão. Dados do Ministério da Gestão e Inovação (MGI) de maio de 2025 mostram que 107.800 servidores públicos federais atuam em regime remoto, seja híbrido ou integral. Esse número representa 24% dos 445 mil servidores elegíveis ao modelo. Considerando o total de servidores ativos, a proporção é de 20% — um em cada cinco.
Crescimento de 28% em sete meses
Em outubro de 2024, eram 84.200 servidores trabalhando à distância, equivalentes a 16,6% dos elegíveis na época. Até maio de 2025, houve um crescimento de aproximadamente 28%. O aumento ocorreu principalmente no modelo híbrido, que saltou de 49.800 para 73.600 trabalhadores (68,4% do total). Já o regime integral remoto conta com 33.500 servidores (31,1%), e 527 trabalham no exterior (0,5%).
Programa de Gestão e Desempenho
O home office no serviço público ganhou força após a pandemia, especialmente com a instituição do Programa de Gestão e Desempenho (PGD), que substitui o controle de ponto eletrônico por acompanhamento baseado em metas e resultados. Atualmente, 147.800 servidores participam do PGD, dos quais 39.600 trabalham presencialmente. Instituído em 2022, o programa entrou em fase completa de implementação em novembro de 2024, e as avaliações dos órgãos deverão ser publicadas a partir de 2025.
Segundo o advogado especializado em gestão pública Asafe Silva, “no serviço público, a eficiência não pode ser medida apenas por conveniência interna, mas pelo resultado para o cidadão”. Ele avalia que o home office deve se manter em níveis estáveis nos próximos anos, mas ressalta a necessidade de definição clara em sistemas de metas. “O risco do controle tradicional do ponto é criar uma aparência de gestão. O servidor está presente, mas isso não significa necessariamente que está entregando bem. O risco da gestão por metas é transformar tudo em número e perder a qualidade.”
Em nota, o MGI destacou auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) em cinco órgãos federais, que concluiu que os órgãos aprimoraram os mecanismos de controle e acompanhamento de metas, fortalecendo a gestão por desempenho. “A dinâmica do PGD reduz a pressão por expansão imediata de áreas físicas, locação de novos imóveis e aquisição adicional de mobiliário e equipamentos”, afirmou a pasta.
Regras e distribuição por órgãos
Só podem trabalhar em home office servidores que tenham completado um ano de estágio probatório. Quem mudou de órgão precisa ter atuado por pelo menos seis meses na modalidade presencial antes de ingressar no teletrabalho.
Entre os órgãos com mais de cinco mil vínculos, o MGI lidera com 67% dos servidores em teletrabalho, seguido pelo Ministério da Fazenda (56%), Advocacia-Geral da União (53%) e INSS (49%). O IBGE, que tenta endurecer as regras desde 2024, ainda tem 27% de seus servidores em home office. Neste mês, a presidência do instituto restringiu a modalidade para novos servidores aprovados pelo Concurso Nacional Unificado (CNU).
Desafios e debate internacional
A professora de Gestão de Carreiras da FGV Gabriela Nunes destaca desafios: “Fazer uma comunicação adequada tanto para quem está no presencial, híbrido e teletrabalho é difícil. Outro desafio é o engajamento, mais difícil de manter com pessoas trabalhando à distância, mantendo uma cultura organizacional. Há também a questão da equidade no reconhecimento e na distribuição de trabalhos.”
No Congresso Nacional, uma proposta de Reforma Administrativa apresentada em 2024 previa limitar o trabalho remoto a 20% da força de trabalho de cada órgão e a um dia por semana, com exceções mediante justificativa. O texto não avançou.
No cenário internacional, o presidente dos EUA, Donald Trump, determinou a volta aos escritórios para todos os funcionários públicos federais em 2025, com exceções como servidores com deficiência motora. O Canadá ampliou o trabalho presencial: desde maio, chefias devem trabalhar cinco dias presenciais por semana; para os demais, a exigência de quatro dias entrou em vigor na semana passada. Em 2022, a Irlanda lançou programa para ampliar o trabalho híbrido, permitindo ao menos 20% de tempo remoto. No Reino Unido, desde outubro de 2024, a maioria dos funcionários públicos federais deve cumprir ao menos 60% da jornada presencialmente, medida que enfrenta resistência sindical.



