Google escolhe IPT em SP para novo centro de engenharia e inovação
Google escolhe IPT em SP para novo centro de engenharia

O Google escolheu o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), na Cidade Universitária, zona oeste de São Paulo, para ampliar sua presença no Brasil. O novo Centro de Engenharia, que será aberto em julho, representa mais do que a instalação de um novo polo da gigante de tecnologia no país. Para os gestores do instituto, o movimento consolida um modelo de inovação aberta que une pesquisa científica, setor produtivo e empreendedorismo tecnológico em um mesmo local.

Investimento e parceria no IPT Open

Criado há cinco anos, o IPT Open reúne empresas, startups, universidades e pesquisadores em torno de projetos de desenvolvimento tecnológico. O programa já atraiu cerca de R$ 500 milhões em investimentos privados, segundo o próprio instituto, de empresas como WEG, Vale, Lenovo, Tupi, Inteli e, agora, a multinacional de softwares e serviços online. A instituição possui, ao todo, 14 parceiros no programa. Só o Google vai investir R$ 109 milhões. Desse total, R$ 9 milhões serão destinados a melhorias em alguns prédios do IPT.

“O Google arrematou, consolidou e validou o modelo. Agora a gente tem um sistema que atraiu nada menos do que a marca mais valiosa do mundo”, afirma o presidente do IPT, Anderson Correia, ao Estadão.

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Modelo de inovação aberta

Segundo Alexandre Freire, diretor sênior de Engenharia para Privacidade, Segurança e Proteção aos usuários do Google, a escolha do IPT está ligada ao modelo de inovação aberta. “Queremos unir o conhecimento científico de ponta, o setor produtivo e novos talentos para acelerar o desenvolvimento de soluções inovadoras”, afirma. A proximidade física com a universidade, pesquisadores e startups facilita a troca de conhecimento e ajuda a ampliar o acesso a talentos brasileiros de tecnologia, na visão do diretor do Google. “A inovação real não acontece de forma isolada. Ao construir pontes com a academia, o setor público e o ecossistema de startups, o Google ajuda a impulsionar um ciclo de crescimento”, afirma Freire.

Esse será o segundo centro de engenharia do Google no Brasil – o primeiro fica em Belo Horizonte. A big tech não detalha se esse é o maior investimento da empresa no País. “Não abrimos valores relacionados a este acordo, mas estamos reafirmando o compromisso do Google com o Brasil e reconhecendo a qualidade do talento nacional”, diz Freire.

Segurança digital, inteligência artificial e acessibilidade

O novo Centro de Engenharia do Google terá capacidade para 400 profissionais e passa a integrar formalmente o ecossistema do IPT Open. A abertura está prevista para julho. A iniciativa funciona no câmpus do instituto, no Butantã. No programa, as empresas instalam equipes e centros de inovação dentro da estrutura pública do IPT, compartilhando o ambiente com pesquisadores, startups e universidades. “Trazer uma WEG, uma Vale ou um Google para dentro de um câmpus público é algo que você não encontra em outro lugar. É a integração plena”, diz Correia.

As atividades do Google em São Paulo estarão concentradas em áreas consideradas estratégicas: a principal delas é segurança digital, privacidade e proteção aos usuários. O complexo abriga o primeiro Google Safety Engineering Center (GSEC) da América Latina, integrado à rede global de centros de segurança da companhia que já opera em cidades como Munique (Alemanha), Málaga (Espanha), Hyderabad (Índia) e Dublin (Irlanda). A unidade brasileira vai atuar no desenvolvimento de ferramentas globais de proteção, incluindo sistemas de combate a fraudes, golpes online e ameaças digitais, além da proteção de crianças e adolescentes na internet.

Segundo Alexandre Freire, a meta é usar IA para enfrentar riscos crescentes no ambiente digital. Entre os projetos já desenvolvidos pela engenharia da companhia estão recursos de proteção contra roubo de celulares em dispositivos Android e mecanismos de recuperação de contas por meio de videoselfies, tecnologias que nasceram da observação de desafios enfrentados por usuários em diferentes países.

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Para Anderson Correia, a área de cibersegurança representa uma das maiores oportunidades de colaboração entre o Google, o IPT e a comunidade científica paulista. “É um desafio gigante do Brasil, do mundo, da humanidade. Todos sofremos tentativas de golpe pela internet. Conseguir colocar os pesquisadores do IPT e da USP trabalhando junto com o Google nesses temas tem muito potencial de ganho”, afirma.

IA responsável e acessibilidade

Outra frente de atuação será a IA responsável. O centro paulista atuará no desenvolvimento de modelos e aplicações de inteligência artificial em larga escala, em sintonia com iniciativas acadêmicas como a Cátedra de IA Responsável da USP. A proposta é criar tecnologias seguras e éticas, incorporando mecanismos de privacidade, proteção e governança já na fase de desenvolvimento dos produtos. O tema também aparece como prioridade dentro do próprio IPT Open. Atualmente, os programas de aceleração de startups do instituto, em parceria com o Sebrae, se concentram em inteligência artificial e biotecnologia. A expectativa é de que a presença do Google amplie as possibilidades de interação.

O terceiro eixo da parceria é acessibilidade. O complexo abriga o primeiro Accessibility Discovery Center (ADC) da América Latina, laboratório dedicado ao desenvolvimento, avaliação e testes de tecnologias assistivas. O espaço foi concebido para permitir que pesquisadores, empresas e usuários experimentem soluções voltadas à inclusão de pessoas com deficiência em ambientes digitais. O laboratório foi estruturado em cinco áreas: Gaming, Audição, Visão, Cognitivo e Mobilidade. Durante a inauguração do centro, foram apresentadas ferramentas desenvolvidas para ampliar a autonomia de pessoas com diferentes tipos de deficiência, incluindo recursos de navegação controlados pelo olhar e dispositivos adaptados para usuários com mobilidade reduzida. O espaço vai promover workshops e sessões de feedback contínuas para aprimoramento de produtos e para estimular conexões entre engenheiros do Google e pesquisadores universitários.

Infraestrutura e oportunidades para startups

Além dessas frentes, o presidente do IPT destaca o potencial de cooperação em infraestrutura digital e computação em nuvem, considerada uma das bases para o avanço da IA. Segundo ele, a crescente demanda por processamento e armazenamento de dados transforma os data centers e as tecnologias de nuvem em temas centrais da economia digital. A parceria também resultou na revitalização de áreas históricas do instituto. Além da recuperação arquitetônica do prédio principal ocupado pelo Google, foram implantados novos espaços para uso do IPT, incluindo biblioteca, área de acervo, espaço maker e incubadora. Para o presidente do IPT, a modernização da infraestrutura amplia a capacidade de atração de pesquisadores, startups e novos parceiros tecnológicos.

Outro efeito esperado da chegada do Google é o fortalecimento do ecossistema de startups. O novo Google Campus, voltado para o segmento, passa a operar com foco exclusivo em empresas AI-First, aquelas que têm a IA como base do negócio. A expectativa é que haja integração entre os programas de aceleração do Google e do IPT. “Um aluno da USP ou de qualquer faculdade que monte uma startup e acelere no IPT estará automaticamente conectado a um programa mundial do Google. É a possibilidade de escalar uma empresa para mercados como Estados Unidos, Europa e Ásia”, afirma Correia.

Os programas serão organizados em três frentes: deeptech, com startups voltadas para pesquisa científica e IA aplicada a saúde, agro, clima e energia; desenvolvimento de agentes inteligentes para automação e transformação de processos; e uso de IA para publicidade, economia de criadores, criatividade, dados e mensuração. Segundo o presidente do instituto, essa interação entre grandes empresas, startups e pesquisadores é um dos diferenciais do programa. “Não é um programa de aluguel de espaço. As empresas têm planos de trabalho e projetos de interação conosco. O objetivo é gerar inovação.”

Como ingressar no IPT Open

O ingresso no IPT Open acontece por meio de editais públicos e programas de seleção conduzidos pelo instituto e por parceiros. Um dos exemplos é a parceria com o Sebrae. As startups passam por um processo seletivo e, uma vez aprovadas, recebem acesso aos laboratórios do IPT, acompanhamento técnico de pesquisadores e apoio para desenvolvimento de produtos e validação tecnológica. Além do suporte técnico, os empreendedores passam a conviver com grandes companhias instaladas no IPT Open, ampliando as oportunidades de parcerias, investimentos e acesso a mercados nacionais e internacionais.