El Niño acelera contratos de inteligência climática no Brasil
El Niño acelera contratos de inteligência climática

A iminência de um novo ciclo do El Niño está acelerando o fechamento de contratos de produtos de inteligência climática no Brasil, segundo startups que atuam com soluções de prevenção e mitigação de riscos climáticos. O fenômeno, que entre 2023 e 2024 causou enchentes no Rio Grande do Sul e secas severas na Amazônia e no Nordeste, já mostra seus primeiros efeitos neste ano: no fim de semana, fortes chuvas no estado gaúcho deixaram 22 mil unidades sem energia elétrica e causaram estragos em 21 cidades, conforme boletim da Defesa Civil divulgado no domingo (19).

Previsões e probabilidades do El Niño

O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) prevê chuvas acima da média em áreas da Região Sul e chuvas abaixo da média no centro-norte do país nos próximos meses, além de alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre, o que pode aumentar a ocorrência de incêndios florestais. Mateus de Oliveira Lima, co-fundador da i4sea, plataforma de gestão de risco climático, afirma que há 63% de chance de um El Niño forte até dezembro e cerca de 38% de probabilidade de que o fenômeno seja moderado.

Startups e aceleração de contratos

Fundada em 2015, a i4sea começou atuando no setor portuário e hoje atende indústrias como energia, rodovias, ferrovias, saneamento, seguros e mineração. Segundo Mateus, empresas e governos já se preparam para os impactos do fenômeno, que ocorre a cada cinco a oito anos, mas tem ganhado intensidade com as mudanças climáticas. “Teve clientes nossos que já fizeram, com a nossa base de conhecimento, usando o nosso agente climático de IA, relatórios para enviar para os clientes deles sobre o El Niño e o possível impacto na cadeia logística. Clientes que entraram agora por conta do El Niño e já estão sentando na mesa de reunião com o time de sucesso do cliente perguntando: por quanto tempo eu preciso me preparar para isso? O que isso vai impactar na minha manutenção, na minha operação?”, relata.

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Henrique Lucini Rocha, fundador da Fractal, climate tech especializada em inteligência hidroclimática, destaca que o tempo de negociação de novos contratos diminuiu de uma média de 540 dias para 90 dias desde a tragédia no Rio Grande do Sul, movimento que ganhou força este ano com a chegada do El Niño. “Isso aconteceu depois de 2024, quando as empresas começaram a estruturar áreas de risco, e percebem o quanto seus ativos estão suscetíveis a esse tipo de impacto. Tenho visto que tem havido uma aceleração e uma maior busca por esse tipo de informação”, observa.

Demanda ainda insuficiente

Apesar do crescimento na demanda, Mateus acredita que o interesse das corporações por soluções climáticas ainda está longe do ideal. “Já estivemos em um patamar péssimo, mudamos para um patamar muito ruim depois de 2023. Acho que 2023 foi o ano da virada de chave”, diz. Naquele ano, o El Niño trouxe um problema grave de logística para o país, por conta da seca, que paralisou a hidrovia dos rios Negro e Amazonas, interrompendo a cadeia de suprimentos da Zona Franca de Manaus (ZFM). Além disso, o Porto de Itajaí ficou fechado por 16 dias devido ao excesso de chuvas e fortes correntes no rio. O complexo é o segundo maior do país em movimentação de contêineres e principal porto exportador de aves congeladas e madeira do Brasil.

“Então, 2023 já estava muito ruim, e em 2024 outra crise estourou: o Rio Grande do Sul ficou parado, com rodovias, ferrovias e até o aeroporto impactados. Mas aqui existe uma cultura de achar que aquilo nunca vai acontecer comigo. Tem também um outro ponto regulatório: o Brasil é péssimo em cobrar das empresas o porquê aquilo aconteceu. Em 2024, abriu-se um cofre e mesmo aquelas empresas que não fizeram um relatório de risco climático conseguiram ajuda financeira. Você está bonificando alguém que não fez o que deveria fazer”, aponta.

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Mitigação climática e investimentos

Danilo Zelinski, head de Investimentos em Natureza, Clima e Sustentabilidade na KPTL, investidora das startups i4sea e Fractal, afirma que cada vez mais a agenda da descarbonização começa a dividir espaço com a da mitigação climática. “Não deixou de ter a descarbonização. Descarbonização é importante, continua na pauta, mas parte dos recursos estão indo para adaptação também”, pondera. Segundo ele, esse movimento é puxado por setores estratégicos da economia, como o agronegócio e o de energia, que já sentem na prática os efeitos das mudanças climáticas. “Pensa no nosso motor econômico, que é o agro: tem muita empresa buscando terras em outros estados porque está tendo mais seca em São Paulo. Onde que eu vou colocar uma nova hidrelétrica? Vai faltar água, como é que eu faço para suprir aquela energia que vai ser gerada?”, questiona.

O investidor afirma que a captação de recursos para climate techs acompanha as dificuldades do setor de venture capital, com os juros próximos de 15% ao ano. No entanto, existem mecanismos específicos que têm ajudado a destravar capital para esse tipo de solução, como o programa EcoInvest, do Tesouro Nacional, que reduz o risco de investimentos em adaptação climática. “Tem uma caixinha específica para isso, assim como tem para transição energética, economia circular e bioeconomia”, explica.

Mudança de percepção no mercado financeiro

Ele também observa uma mudança de percepção do mercado financeiro em relação ao tema, muito puxada por exigências regulatórias. Segundo ele, o Banco Central já leva em conta a exposição às mudanças climáticas na avaliação de risco dos bancos. “Não é mais ‘que chato, o pessoal quer que eu faça isso’. É a coisa necessária, é o mínimo necessário a se fazer”, diz. Para o investidor, cada vez mais as empresas precisarão se preparar para mudanças que estão, de fato, afetando os negócios. E não apenas para prevenir um problema que ainda não é sentido de forma concreta. “O El Niño traz essa roupagem atual do problema, mas o problema vai continuar depois, e a tendência não é melhorar. Então a gente precisa realmente pensar em como acompanhar e como prever esses eventos para poder se preparar, porque vai chegar.”