O endividamento das grandes empresas de tecnologia, incluindo Apple, Google e Microsoft, está se aproximando de um ponto de inflexão que pode levar a rebaixamentos de ratings de crédito, de acordo com um relatório da agência de classificação de risco Moody's Investors Service. O documento, divulgado nesta quarta-feira (22), aponta que a dívida combinada das chamadas big techs atingiu US$ 1,2 trilhão em junho de 2026, um aumento de 15% em relação ao ano anterior.
Alavancagem crescente preocupa analistas
Segundo a Moody's, a alavancagem média das cinco maiores empresas do setor – Apple, Microsoft, Alphabet (Google), Amazon e Meta (Facebook) – subiu de 1,5 vez a dívida líquida sobre Ebitda para 2,1 vezes no mesmo período. O relatório destaca que, embora essas companhias ainda mantenham classificações de crédito elevadas, a tendência de aumento do endividamento não pode ser ignorada.
“Estamos vendo um cenário em que as big techs estão utilizando mais dívida para financiar recompras de ações, aquisições e investimentos em inteligência artificial”, afirmou Richard Lane, analista sênior da Moody's, em entrevista ao Valor. “Se esse ritmo continuar, algumas empresas podem atingir limites que acionariam revisões de rating.”
Apple e Google lideram crescimento da dívida
A Apple, maior empresa do mundo por valor de mercado, viu sua dívida de longo prazo saltar para US$ 130 bilhões, impulsionada por programas de recompra de ações. A Alphabet, controladora do Google, aumentou seu endividamento em 20% no último ano, para US$ 45 bilhões, principalmente para financiar investimentos em infraestrutura de nuvem e IA.
A Moody's ressalta que, apesar do crescimento, as big techs ainda possuem forte geração de caixa e liquidez. A dívida total representa apenas 1,2 vez o fluxo de caixa operacional do setor, um nível considerado confortável. No entanto, a agência alerta que a rápida escalada do endividamento pode levar a um ponto de inflexão nos próximos 12 a 18 meses.
Impacto nos ratings de crédito
Atualmente, todas as cinco empresas possuem ratings entre AA e AAA, os mais altos possíveis. Mas a Moody's já colocou a perspectiva de rating da Apple como estável, sinalizando que um rebaixamento não está descartado se a alavancagem continuar subindo. Para a Amazon, a perspectiva é negativa, refletindo a pressão dos gastos com logística e data centers.
“O ponto de inflexão ocorre quando a dívida líquida ultrapassa 2,5 vezes o Ebitda para a maioria dessas empresas”, explicou Lane. “Isso desencadearia uma revisão de rating, especialmente se combinado com uma desaceleração no crescimento da receita.”
Reação do mercado
O relatório da Moody's gerou reações mistas no mercado. Analistas do Goldman Sachs consideram o alerta prematuro, destacando que as big techs têm margens para absorver mais dívida sem comprometer a qualidade de crédito. Já o Credit Suisse vê o relatório como um sinal de que o ciclo de endividamento barato pode estar chegando ao fim.
As ações das big techs operavam em baixa nesta quarta-feira, com Apple caindo 1,2% e Alphabet recuando 0,8% no pré-mercado. O índice Nasdaq Composite, que reúne as principais empresas de tecnologia, registrava queda de 0,5%.



