De advogado a humorista: a transformação de Rafael Cunha em empreendedor digital
De advogado a humorista: a transformação de Rafael Cunha

Advogado larga carreira para virar humorista nas redes

Fingir que usava o Wi-Fi do vizinho e reclamar quando o sinal caía. Cobrar satisfações de moradores porque haviam “cortado” a água que ele desviava com um suposto “gato”. Ou convencer pessoas de que o governo havia criado um rodízio para fazer o “número 2” no banheiro. Foi com esse tipo de pegadinha que o paraibano Rafael Cunha deixou os escritórios e tribunais em João Pessoa para conquistar milhões de seguidores e ampliar sua atuação como empreendedor.

Quando Rafael Cunha começou a publicar vídeos na internet, no fim de 2017, ele já tinha uma carreira consolidada como advogado. Formado em Direito em 2009, mantinha escritório próprio e uma clientela construída ao longo de anos de atuação. Os primeiros vídeos mostravam situações do cotidiano do casamento com a esposa, Débora. A repercussão veio rapidamente. Depois surgiram as pegadinhas de rua, que se tornariam sua principal marca nas redes sociais.

O ponto de virada no fórum

Em poucos meses, a rotina dividida entre audiências e gravações tornou-se inviável. O ponto decisivo aconteceu dentro de um fórum. “Cheguei para uma audiência e o juiz perguntou: ‘Hoje tu não é o cara das pegadinhas?’. Naquele momento eu percebi que não fazia mais sentido continuar dividindo as duas vidas”, revela Cunha. Mesmo sem garantia de renda, foi naquele momento que ele decidiu encerrar a carreira jurídica e apostar integralmente na produção de conteúdo. A decisão surpreendeu até a família. “Meu pai dizia: ‘Você vai largar um escritório montado por uma coisa que ninguém sabe se vai dar certo?’. Mas eu tinha colocado uma meta: viver daquilo, independentemente do tamanho que fosse ficar”, conta o humorista.

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Da influência ao empreendedorismo

Com o crescimento da audiência — hoje tem 8,7 milhões de seguidores no TikTok, 8,1 milhões no Instagram e 470 mil inscritos no YouTube –, o humorista começou a colher os frutos financeiros do trabalho nas redes. E decidiu diversificar suas fontes de receita. Ao longo dos últimos anos, Cunha passou a atuar em diferentes negócios ligados a clubes de benefícios, ações promocionais, produtos digitais e entretenimento. Segundo ele, a decisão teve como objetivo reduzir a dependência da receita obtida com publicidade nas plataformas digitais. “Internet muda muito rápido. Quem vive só dela corre um risco enorme”, explica.

Negócios cresceram junto com a audiência

Com a expansão de suas atividades empresariais, Cunha passou a estruturar também a gestão do patrimônio. Cliente da XP havia anos, passou recentemente a integrar a XPlay, iniciativa criada pela instituição para atender atletas, artistas e influenciadores com serviços personalizados de investimentos, planejamento patrimonial e acesso a experiências exclusivas. Segundo Rafael, mais do que uma ação de marketing, a parceria representa um passo na profissionalização da administração dos seus ativos.

Conteúdo e negócios caminham juntos

Ao olhar para trás, Cunha acredita que a internet lhe ofereceu a oportunidade de transformar uma habilidade que já fazia parte de sua vida em profissão. Hoje, ele administra empresas, desenvolve novos projetos, continua produzindo conteúdo diariamente e realiza apresentações pelo país. Ainda é reconhecido pelas pegadinhas que viralizaram, mas diz que os negócios passaram a ocupar um espaço importante em sua rotina. Depois de consolidar a audiência nas redes sociais, Cunha vive uma fase de maior diversificação dos negócios e de organização da gestão patrimonial. Ao mesmo tempo, diz que pretende manter a produção de conteúdo como base de sua atuação, enquanto desenvolve novos projetos empresariais e amplia sua presença no entretenimento. “O conteúdo continua sendo o motor de tudo. Mas ele virou também a porta de entrada para construir negócios”, resume.

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O humor antes da internet

Embora tenha ficado conhecido nas redes sociais, Rafael Cunha afirma que sempre foi bem-humorado. Desde criança, era o “palhaço da turma”. Amigos e familiares o incentivavam a transformar essa característica em profissão, mas essa possibilidade parecia distante antes da popularização das plataformas digitais. Foi justamente a internet que abriu espaço para transformar essa habilidade em carreira. A inspiração inicial veio da própria rotina. Os vídeos sobre casamento retratavam situações comuns da vida a dois, tratadas de forma bem-humorada. “Eu precisava produzir conteúdo todos os dias. Então pensei: vou mostrar aquilo que eu realmente vivo, em vez de inventar personagens”, diz.

As pegadinhas que viralizaram

Depois dos vídeos sobre casamento, as pegadinhas passaram a ampliar o alcance do criador de conteúdo. Uma das primeiras gravações de maior repercussão mostrava Cunha batendo à porta de desconhecidos para reclamar que eles haviam desligado o Wi-Fi que ele usava “há dois meses”. Depois vieram vídeos em que dizia utilizar clandestinamente a água do vizinho e, em 2018, durante a greve dos caminhoneiros, ele fingia retirar combustível — produto raro naquele momento — de carros estacionados. Outra das pegadinhas mais conhecidas simulava uma fiscalização do governo para controlar os dias em que cada cidadão poderia usar o banheiro. Para Cunha, o diferencial desse formato está na reação das pessoas. “O engraçado não sou eu. O engraçado é a reação das pessoas.”

A internet mudou — e ele também

Se o crescimento foi acelerado, a forma de produzir conteúdo também mudou. Cunha afirma que hoje publica menos vídeos com a própria família e evita expor os filhos da mesma forma que fazia anos atrás. Na avaliação dele, o ambiente digital se tornou mais sujeito a julgamentos e menos tolerante do que no início da carreira. “Hoje você pensa dez vezes antes de publicar qualquer coisa”, assegura. As próprias pegadinhas também diminuíram. Segundo Cunha, o reconhecimento nas ruas e o aumento dos riscos tornaram mais difícil gravar reações espontâneas. Mesmo assim, ele considera esse formato o principal responsável por sua projeção nacional.