O avanço no IPO da SpaceX materializa cada vez mais o real valor da companhia: sob a expectativa de captar US$ 75 bilhões em sua estreia na Nasdaq, a empresa mira um valuation de até US$ 1,8 trilhão. Enquanto a SpaceX caminha para uma avaliação de mercado, uma de suas principais concorrentes, a Blue Origin, segue uma incógnita entre analistas e investidores.
Financiamento privado e falta de referências
Desde que foi criada em 2000, a empresa de exploração espacial Blue Origin foi financiada exclusivamente por investimentos privados vindos dos bolsos generosos do seu fundador, o bilionário Jeff Bezos. Por anos, isso impediu o mercado de definir a valorização da companhia ao longo do tempo — ou mesmo qualquer base de valor.
“Diferente da SpaceX, que ao longo dos últimos anos teve sequências de rodadas no mercado secundário e agora caminha para o IPO, na Blue Origin não há série temporal de marcações pelas quais o mercado pudesse construir uma referência”, avalia o diretor do family office Eclipseon, Ricardo Simon. “Qualquer número que circule hoje é exercício especulativo”, diz o gestor com posição na SpaceX e em outra concorrente, a Rocket Lab.
Planos de captação e acidente
Parecia que o cenário poderia mudar nos próximos meses. O CEO da Blue Origin, Dave Limp, disse a funcionários em uma reunião geral que a companhia precisaria de investimento externo para aumentar significativamente a frequência de lançamentos, informou o Financial Times em maio. A captação buscaria, inclusive, aproveitar o apetite de investidores pela indústria aeroespacial promovido pelo IPO da SpaceX.
Mas os planos podem ter mudado no final do mês passado. Uma explosão do foguete New Glenn durante um teste de ignição em Cabo Canaveral na noite do dia 28 de maio pode colocar em xeque todo o calendário de entregas da companhia, já que o incidente comprometeu a base de lançamento, com tempo de reconstrução mais longo. “A estimativa razoável é que a Blue Origin fique no mínimo doze meses sem realizar lançamentos enquanto a infraestrutura é refeita. Todo o calendário precisa ser empurrado um ano para frente”, diz Simon.
Dois dias antes do acidente, a Nasa anunciava um contrato de US$ 188 milhões com a Blue Origin para a construção de veículos de exploração lunar. Outros US$ 280,4 milhões poderiam ser adicionados com duas novas ofertas de serviço. O incidente pode atrasar não apenas as metas da própria companhia, mas também as missões da agência espacial americana que projetava colocar o homem novamente na Lua até 2028.
SpaceX vs. Blue Origin: qual é a mais valiosa?
Todo o incidente torna ainda mais desafiador estipular um valor para a Blue Origin, embora deixe mais evidente que há uma diferença de maturidade de negócios em comparação à sua principal concorrente, a SpaceX, prestes a fazer seu IPO.
Além do mais, a SpaceX hoje abriga outras linhas de negócio do bilionário Elon Musk como a xAI, de inteligência artificial, e a Starlink, de internet via satélites. “Uma parte relevante do valuation atual da SpaceX se ancora em integração com inteligência artificial, tanto em infraestrutura terrestre quanto em projetos orbitais que ainda estão sendo construídos”, aponta Simon.
Já a Blue Origin, explica o gestor, tem operação concentrada essencialmente em lançamentos de aeronaves e contratos governamentais. O acidente da última quinta-feira atrasa o início do que seria uma linha de negócios adicional da companhia: uma constelação de satélites ao modelo da Starlink anunciada no início deste ano.
Comparação entre SpaceX e Blue Origin
- Dono: Elon Musk (Spacex) vs. Jeff Bezos (Blue Origin)
- Ano de fundação: 2002 (SpaceX) vs. 2000 (Blue Origin)
- Lançamentos bem-sucedidos: Mais de 650 (apenas na família Falcon) vs. 41
- Principais linhas de negócio: Aeronaves e peças; inteligência artificial; conectividade via satélites; defesa (SpaceX) vs. Aeronaves e peças (Blue Origin)
- Valor de mercado: US$ 1,75 tri (expectativa com IPO) vs. Sem projeções confiáveis



