Um estudo recente publicado na revista Proceedings of the Royal Society B revela como as baratas alemãs (Blattella germanica) estão evoluindo para superar as iscas envenenadas com açúcar. A pesquisa, liderada por cientistas da Universidade Estatal da Carolina do Norte, mostra que uma mutação que tornou as fêmeas avessas ao açúcar está sendo compensada por uma segunda mutação nos machos, que altera a composição do presente nupcial.
O ritual de acasalamento das baratas alemãs
O sexo nessa barata se dá após um ritual de cortejo. O macho se aproxima da fêmea, vira as costas e separa as asas de maneira sedutora. Se a fêmea mostra interesse, o macho ativa glândulas no dorso e oferece uma gota de um líquido doce. A fêmea monta no dorso do macho para degustar a oferenda, enquanto ele estende seu órgão genital em forma de gancho e a penetra. A manobra leva exatos sete segundos, tempo que a fêmea leva para saborear o doce. Quando o presente é consumido, a fêmea tenta se desvencilhar, mas já é tarde.
A mutação que salvou as baratas do veneno
Os seres humanos usam iscas adoçadas com inseticidas para exterminar baratas. No entanto, algumas baratas desenvolveram uma mutação que as faz rejeitar o açúcar. Essas mutantes sobrevivem, enquanto as que gostam de açúcar morrem envenenadas. A mutação se espalhou rapidamente pela Europa. Mas isso criou um problema: durante o acasalamento, quando o macho oferece a gota doce, a fêmea mutante sobe nele, mas ao sentir o gosto de açúcar, pula horrorizada após apenas quatro segundos, reduzindo as chances de fertilização.
Uma segunda mutação resolve o problema
Recentemente, os cientistas descobriram machos capazes de manter as fêmeas avessas ao açúcar distraídas pelos sete segundos necessários. Ao investigar, isolaram as gotas produzidas por esses machos. A gota doce original contém maltose (um açúcar composto por duas glicoses). Quando a fêmea ingere, a maltose é convertida em glicose, e ela sente o sabor doce. Já os machos mutantes produzem maltotriose (três glicoses ligadas), que leva mais tempo para ser convertida em glicose. Assim, a fêmea demora a perceber o gosto do açúcar, e quando percebe, já se passaram os sete segundos e ela já foi fertilizada.
Implicações evolutivas e práticas
Segundo Fernando Reinach, biólogo e autor do artigo original, "esse é um bom exemplo de como a pressão seletiva provoca a evolução dos seres vivos". As baratas agora vivem felizes na Europa, imunes às iscas doces e se reproduzindo tão bem quanto antes. A pesquisa destaca a capacidade de adaptação dos insetos e a necessidade de desenvolver novas estratégias de controle de pragas.



