O mercado de trabalho para recém-formados nos Estados Unidos tem demonstrado um enfraquecimento mais expressivo do que para o trabalhador médio desde 2024. Os dados analisados pelo Goldman Sachs e divulgados nesta sexta-feira (19) mostram que o cenário atual alimenta preocupações de que a Inteligência Artificial (IA) esteja começando a ocupar postos de nível inicial, especialmente em funções de escritório, o que poderia dificultar a transição dos jovens para a força de trabalho.
Impacto da IA nas contratações de entrada
O documento do Goldman Sachs destaca que o impacto final da IA sobre as contratações de entrada também dependerá da rapidez com que novos participantes da força de trabalho e trabalhadores desligados conseguem se adaptar a um mercado em transformação. O banco aborda o desafio da requalificação profissional diante da disrupção tecnológica.
Metodologia da pesquisa
Os analistas do Goldman explicaram que para medir essa exposição, foram utilizados dados da Pesquisa da Comunidade Americana (ACS) para analisar a distribuição ocupacional de formados em mais de 180 cursos. O método consistiu em identificar as funções ocupadas por profissionais de 21 a 30 anos que atuaram em tempo integral entre 2022 e 2024.
“Para cada curso, multiplicamos o indicador de risco de substituição de cada ocupação por sua participação entre os recém-formados e somamos os resultados para construir uma medida, no nível dos cursos, do risco de substituição relacionado à IA enfrentado pelos graduados ao ingressarem no mercado de trabalho”, afirmam os analistas.
Desigualdades entre áreas acadêmicas
O estudo aponta desigualdades claras entre diferentes áreas acadêmicas, pontuando quais perfis profissionais estão mais suscetíveis à substituição pela IA. Enquanto ciência da computação e estatística estão entre as graduações com maior perigo, os cursos de saúde e educação apresentam os menores índices de exposição.
“Graduações que direcionam para ocupações em serviços profissionais e empresariais também apresentam risco mais alto de substituição, enquanto cursos de engenharia exibem exposição relativamente menor à IA”, diz o relatório.
20 cursos mais expostos à IA
- Ciências da Gestão e Métodos Quantitativos
- Ciência da Computação
- Engenharia da Computação
- Estatística e Ciências da Decisão
- Programação de Computadores
- Ciência da Computação e Informação (Geral)
- Administração e Gestão de TIC
- Ciência de Dados
- Redes de Computadores e Telecomunicações
- Matemática
- Recursos Humanos e Serviços de Gestão
- Finanças e Serviços de Gestão Financeira
- Estudos Jurídicos
- Sistemas de Informação de Gestão e Serviços
- Contabilidade e Serviços Relacionados
- Economia Empresarial/Gerencial
- Economia
- Física
- Estudos de Escrita
- Ciência Política e Governo
20 cursos menos expostos à IA
- Farmácia
- Enfermagem
- Educação Especial
- Formação de Professores
- Programas Preparatórios de Saúde/Medicina
- Farmacologia e Toxicologia
- Reabilitação e Profissões Terapêuticas
- Engenharia Civil
- Engenharia de Materiais
- Fisiologia, Patologia e Ciências Relacionadas
- Ciências Arquitetônicas
- Serviço Social
- Engenharia Arquitetônica
- Biologia
- Engenharia Química
- Ciências Animais
- Bioquímica, Biofísica e Biologia Molecular
- Serviços de Saúde (Geral)
- Engenharia Industrial
- Neurobiologia e Neurociências
Mudanças nas matrículas
O Goldman Sachs se baseou na análise dos dados do Enrollment Trends (matrículas em tendência), do relatório do National Student Clearinghouse. Os números mostram que o comportamento dos estudantes mudou significativamente no ano acadêmico de 2025-26. Segundo o texto do banco, pela primeira vez, houve uma relação estatisticamente significativa entre o risco de automação e a escolha dos cursos, confirmando que os alunos estão lendo o cenário de forma prática e reagindo.
Enquanto áreas como ciência da computação e programação de computadores registraram quedas superiores a 10% nas matrículas, cursos ligados à saúde e engenharia tiveram um aumento médio de 3% no mesmo período.
“A queda nas matrículas concentrou-se em cursos que direcionam para ocupações caracterizadas simultaneamente por maior risco de substituição por IA e crescimento recente mais fraco do emprego”, afirmam os analistas.
O Goldman ressalta que essa resposta do mercado acadêmico é condizente com pesquisas anteriores que indicam que estudantes migram para áreas onde a demanda por trabalho e os salários estão em crescimento. Os analistas explicam que antes o ajuste demorava anos para acontecer, pois dependia da observação dos resultados obtidos por colegas que já haviam concluído a graduação e da dificuldade de mudar a escolha feita no início do curso universitário, decisão que muitas vezes é considerada irreversível.
Contudo, o cenário atual mostra um movimento atípico e muito mais veloz do que o observado historicamente. “As preocupações com o impacto da IA nas perspectivas de carreira se tornaram um fator cada vez mais importante na escolha dos cursos universitários”, conclui o relatório, reforçando que essa maior visibilidade da disrupção tecnológica acelerou substancialmente a tomada de decisão acadêmica.
Além disso, o documento aponta que, antes do ano acadêmico de 2024-25, não existia uma correlação estatisticamente relevante entre as mudanças nas matrículas e o risco de substituição por inteligência artificial. A mudança de comportamento registrada nos dados de 2025-26 sinaliza que o fator de risco tornou-se um parâmetro determinante na decisão de ingresso dos novos universitários.
O Goldman Sachs destaca que essa flexibilidade é uma vantagem comparativa dos trabalhadores mais jovens frente aos mais velhos, que podem ter mais dificuldades em transitar entre setores. “Essas tendências iniciais sugerem que trabalhadores jovens podem se adaptar de forma mais flexível do que trabalhadores mais velhos à disrupção provocada pela IA”, afirmam os analistas ao observarem a capacidade dos estudantes de redirecionar suas competências.



