O Ibovespa operava em queda de cerca de 1% no início do último pregão de junho, do segundo trimestre e do primeiro semestre, pressionado pelo viés de alta dos juros futuros e do dólar. Às 11h09, o índice recuava 0,95%, aos 171.553,33 pontos, após atingir a mínima de 170.538,48 pontos, uma queda de 1,54%. A máxima do dia foi registrada na abertura, aos 173.204,72 pontos. Das 79 ações da carteira teórica, apenas oito subiam.
Desempenho mensal e fluxo estrangeiro
O Ibovespa acumulava, até o momento, recuo de 1,19% no mês. Se confirmado, será o quarto mês consecutivo de desvalorização. O petróleo avançava quase 0,40% e o minério de ferro subiu 0,61% em Dalian e 0,14% em Cingapura, mas sem influenciar as ações dos respectivos setores.
Segundo Bruno Takeo, estrategista da S4 Consultoria de Investimentos, apesar de dúvidas sobre inteligência artificial que têm gerado volatilidade nos mercados internacionais, o otimismo com o setor de tecnologia prevalece. “O EWZ continua apresentando recordes de saídas de investidor estrangeiro. Essa desmontagem de posição reflete o que temos visto no Ibovespa”, afirmou, referindo-se ao principal ETF brasileiro negociado em Nova York.
Pedro Paulo Silveira, economista e sócio da A3S Investimentos, também destacou a ausência de investidores estrangeiros como fator que tira tração do Ibovespa. “Temos de olhar para o fluxo de gringo, que é de saída”, disse. Em junho até a última sexta-feira, a retirada de estrangeiros somou R$ 8,754 bilhões. Segundo estrategistas, a reversão do fluxo desde meados de abril está relacionada a mudanças nas expectativas de juros e à rotação de capital para ações de tecnologia nos EUA e na Ásia.
Agenda doméstica: Caged e dados fiscais
Na agenda doméstica, o destaque é o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de maio, a ser divulgado às 14h, acompanhado de comentários do ministro do Trabalho, Luiz Marinho. A mediana das estimativas da pesquisa Projeções Broadcast é de criação líquida de 120 mil vagas com carteira assinada, após 85.888 em abril. O dado será acompanhado de perto pelo mercado para ajustar as expectativas para o Copom de agosto.
Além disso, riscos fiscais permanecem no radar, com a possível votação de uma PEC no Senado que cria aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde, classificada pela equipe econômica como uma pauta-bomba com forte impacto fiscal, conforme nota do economista sênior da Tendências Consultoria, Silvio Campos Neto.
O Banco Central informou que o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 56,131 bilhões em maio, acima do rombo de R$ 53,5 bilhões projetado por economistas em pesquisa da Reuters, e bem superior ao déficit de R$ 33,740 bilhões de maio do ano passado. No acumulado dos cinco primeiros meses do ano, o déficit primário foi de R$ 24,883 bilhões, contra superávit de R$ 69,121 bilhões no mesmo período de 2024.
Dívida pública e expectativas para a Selic
Com o resultado, a dívida bruta brasileira atingiu 81,1% do PIB em maio, acima dos 80,7% projetados, o maior patamar desde maio de 2021. A equipe de análise macroeconômica do Bradesco avaliou que o resultado nominal está bastante pressionado, mas deve melhorar marginalmente nas próximas divulgações. “Ainda assim, o déficit nominal continuará elevado, pressionado pelo pagamento de juros, o que resultará na elevação da dívida pública. Projetamos que a dívida bruta do governo geral cresça cerca de 4 pontos percentuais ao longo do ano, encerrando 2026 pouco abaixo de 83% do PIB”, afirmaram os economistas do banco.
Apesar do quadro fiscal, os investidores seguem elevando as apostas de que o Banco Central promoverá pelo menos mais um corte de 25 pontos-base na Selic, hoje em 14,25% ao ano. Na última sexta-feira, a precificação das opções de Copom na B3 indicava 57,4% de chance de corte de 25 pontos-base em agosto, contra 38,9% de manutenção. Uma semana antes, os percentuais eram de 26% para corte e 68,5% para manutenção.
Cenário externo: Jolts e Oriente Médio
Nos Estados Unidos, o relatório Jolts de maio mostrou abertura de 7,594 milhões de postos de trabalho, acima da previsão de 6,975 milhões. Segundo Campos Neto, os dados ajudam a calibrar as apostas para o Federal Reserve: “Nas últimas semanas, posicionamentos mais firmes da autoridade monetária alteraram a precificação da curva de juros, que passou a incorporar entre uma e duas altas dos juros no segundo semestre”.
No exterior, o foco também está no conflito no Oriente Médio. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, negou novamente a realização de conversas diplomáticas com os americanos, mas disse que discussões em Doha com a delegação do Catar tratarão da implementação de cláusulas do memorando de entendimento com os EUA.
Na véspera, o Ibovespa fechou em queda de 0,05%, aos 173.205 pontos, acumulando recuo mensal de 0,33% e alta de 7,50% no primeiro semestre. (Com Reuters e Estadão Conteúdo)



