A construtora Tenda desistiu de construir um grande empreendimento com 1,5 mil casas destinadas às vítimas das enchentes em Canoas, uma das cidades mais afetadas pela catástrofe que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024. A decisão ocorreu após a empresa reorganizar suas atividades e concluir que não havia mais condições técnicas nem econômicas para viabilizar o projeto.
Contrato firmado em julho de 2025 foi rescindido sem penalidades
O contrato foi oficializado em julho de 2025, em cerimônia com a Prefeitura de Canoas e representantes do governo federal. A rescisão foi unilateral e não previu penalidades para a Tenda. O projeto contaria com investimento público de R$ 300 milhões, financiado pela Caixa Econômica Federal, e era o maior empreendimento do Minha Casa Minha Vida (MCMV) – Reconstrução, modalidade do programa habitacional do Ministério das Cidades para prover 3 mil moradias a desabrigados pelas enchentes.
A previsão era de implantação rápida, com casas de madeira pré-moldadas. A Tenda é dona da Alea, divisão que produz residências a partir de partes estruturais de madeira fabricadas em Jaguariúna (SP). Essas partes seriam levadas para montagem em um grande terreno no bairro Brigadeira, em Canoas.
Obras não começaram devido a dificuldades da Alea
As obras do empreendimento não chegaram a ser iniciadas, pois a Alea passou por uma reorganização. A produção de casas pré-fabricadas é uma atividade que o grupo ainda tenta deslanchar. No ano passado, a empresa identificou estouros de custos por dificuldades em gerenciar equipes em muitos empreendimentos simultaneamente. Como resposta, reduziu lançamentos, cortou regiões de atuação e passou a empregar trabalhadores próprios em vez de empreiteiros.
Apesar das dificuldades da Alea, a Tenda registrou lucro líquido consolidado recorde no ano passado. O grupo lucrou R$ 506 milhões em 2025, salto de 375% ante 2024 (R$ 106 milhões). O aumento foi impulsionado pela expansão dos lançamentos e vendas totais, reajustes de preços e ganhos de escala. Nos últimos 12 meses, as ações da empresa na bolsa avançaram 45%.
Posicionamento da Tenda e do governo
Em nota, a Tenda explicou que “descontinuou o projeto habitacional previsto para Canoas após reavaliação das condições técnicas e econômico-financeiras necessárias para sua execução no modelo originalmente estruturado”. A companhia acrescentou que “segue comprometida com a agenda de habitação de interesse social no Rio Grande do Sul, onde mantém sua atuação por meio da marca Tenda e de empreendimentos em parceria com o Minha Casa Minha Vida e com o Porta de Entrada, do governo estadual”.
O Ministério das Cidades informou que a Tenda “desistiu do projeto de maneira unilateral antes do início das obras e comunicou a pasta sobre esta decisão”. Apesar disso, a demanda por moradias em Canoas foi atendida, segundo o governo. Estão sendo destinadas 3,2 mil unidades habitacionais, sendo 1,5 mil em processo de contratação ou construção pelo Minha Casa Minha Vida e 1,6 mil na linha Compra Assistida. “O processo de enquadramento e finalização da demanda necessária para atendimento ainda se encontra em curso e, caso se observe a necessidade de novas unidades, serão autorizadas”, acrescentou. A Prefeitura de Canoas foi procurada, mas não retornou os questionamentos.



