Mercado de trabalho aquecido explica metade do desvio da inflação de serviços, diz BC
Mercado de trabalho aquecido explica metade do desvio da inflação de serviços

Um estudo do Banco Central (BC) divulgado nesta quarta-feira (22) revela que o mercado de trabalho aquecido é responsável por cerca de metade do desvio da inflação de serviços em relação à meta. A pesquisa, conduzida pelo Departamento de Estudos e Pesquisas (Depep), analisou dados entre 2021 e o primeiro trimestre de 2026 e concluiu que o hiato do produto positivo — indicador de aquecimento econômico — explica 50% da diferença entre a inflação de serviços observada e a esperada.

Impacto setorial e regional

O estudo detalha que o efeito é mais pronunciado em setores intensivos em mão de obra, como alimentação fora do domicílio, serviços de alojamento e transporte. “O mercado de trabalho apertado tem um efeito direto sobre os custos salariais, que são repassados aos preços finais”, afirma o documento. Regionalmente, as regiões Sudeste e Centro-Oeste apresentam os maiores desvios, refletindo a recuperação mais acelerada do emprego.

Metodologia e comparações

Para isolar o impacto, os pesquisadores utilizaram modelos de regressão que controlam fatores como câmbio, preços de commodities e expectativas de inflação. O coeficiente estimado indica que, para cada ponto percentual de hiato do produto positivo, a inflação de serviços aumenta em 0,3 ponto percentual. Em 2025, o hiato do produto atingiu 1,2%, contribuindo com 0,36 p.p. para a inflação de serviços, que fechou o ano em 5,8% — acima do centro da meta de 3,5%.

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O estudo também compara o período atual com o ciclo de 2014-2016, quando o mercado de trabalho estava mais ocioso. Naquela época, o hiato do produto negativo reduziu a inflação de serviços em até 0,5 p.p. “A assimetria entre os ciclos sugere que a transmissão da atividade para os preços é mais forte em momentos de aquecimento”, destaca o BC.

Implicações para a política monetária

Os resultados reforçam a necessidade de manter a política monetária contracionista para conter a demanda agregada. O Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a Selic para 14,25% ao ano na última reunião, citando justamente a pressão sobre serviços. “O estudo corrobora a visão de que o mercado de trabalho aquecido é um dos principais canais de transmissão da política monetária para a inflação”, disse o diretor de Política Econômica, Diogo Guillen, em entrevista coletiva.

Para 2026, o BC projeta que o hiato do produto permaneça positivo até o segundo semestre, o que deve manter a inflação de serviços acima da meta por mais alguns trimestres. A expectativa é que a inflação de serviços feche o ano em 5,2%, ainda distante do centro da meta.

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