O setor industrial brasileiro precisará combinar diferentes rotas tecnológicas para reduzir suas emissões de carbono sem comprometer a competitividade, de acordo com estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgado nesta terça-feira. O documento aponta que não existe uma solução única para a descarbonização, sendo necessário adotar um portfólio de estratégias que incluem hidrogênio verde, eletrificação de processos, captura e armazenamento de carbono, além do uso de biocombustíveis.
Rotas complementares para setores distintos
O estudo da CNI, intitulado "Rotas de Descarbonização para a Indústria Brasileira", analisa as particularidades de 15 setores industriais e conclui que as soluções variam conforme a intensidade energética e as características de cada cadeia produtiva. Para setores de alta temperatura, como siderurgia e cimento, a eletrificação direta é limitada, tornando o hidrogênio verde e a captura de carbono opções mais viáveis. Já em setores como papel e celulose, o uso de biomassa e a cogeração de energia são alternativas promissoras.
Segundo o gerente-executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo, "a indústria brasileira tem um potencial enorme de redução de emissões, mas precisa de um planejamento integrado que considere as especificidades de cada setor e a disponibilidade de recursos naturais". Ele destaca que o Brasil possui vantagens comparativas, como a matriz elétrica limpa e a abundância de biomassa, mas alerta que a competitividade depende de políticas públicas estáveis e de investimentos em inovação.
Investimentos e desafios
O estudo estima que a descarbonização da indústria brasileira exigirá investimentos da ordem de R$ 300 bilhões até 2050, considerando a implementação de tecnologias como hidrogênio verde, eletrificação e captura de carbono. Desse total, cerca de 40% seriam destinados à modernização de processos industriais e 30% à infraestrutura energética. Os recursos viriam de fontes públicas e privadas, incluindo linhas de crédito verdes e parcerias internacionais.
Entre os principais desafios apontados estão a necessidade de redução de custos das tecnologias emergentes, a capacitação de mão de obra especializada e a criação de um marco regulatório que incentive a adoção de soluções de baixo carbono. O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirmou que "a transição energética é uma oportunidade para a indústria brasileira se posicionar como líder global em sustentabilidade, mas é fundamental que as políticas públicas garantam previsibilidade e competitividade".
Impactos na competitividade
A descarbonização, se mal planejada, pode aumentar os custos de produção e reduzir a competitividade da indústria brasileira no mercado internacional. O estudo alerta que setores como química, metalurgia e cerâmica são particularmente vulneráveis, pois dependem de combustíveis fósseis e têm margens de lucro reduzidas. Para mitigar esse risco, a CNI recomenda a adoção gradual de tecnologias, com metas setoriais realistas e incentivos fiscais para empresas que investirem em redução de emissões.
Além disso, o Brasil pode aproveitar sua matriz energética limpa para atrair investimentos estrangeiros em setores como hidrogênio verde e biocombustíveis avançados. O estudo destaca que o país já possui capacidade instalada de energia eólica e solar que pode ser direcionada para a produção de hidrogênio renovável, criando uma nova cadeia de valor e gerando empregos qualificados.
Perspectivas para 2050
O cenário projetado pela CNI indica que, com a implementação das rotas tecnológicas adequadas, a indústria brasileira pode reduzir suas emissões de carbono em até 80% até 2050, em comparação com os níveis de 2020. Para isso, será necessário um esforço coordenado entre governo, setor privado e academia, além de parcerias internacionais para transferência de tecnologia e financiamento.
O estudo conclui que a descarbonização não é apenas uma exigência ambiental, mas também uma oportunidade de modernização e aumento de eficiência. "A indústria que não se adaptar à economia de baixo carbono perderá competitividade no longo prazo", alerta Davi Bomtempo. "O Brasil tem condições de liderar essa transformação, desde que haja planejamento e compromisso de todos os atores envolvidos."



