Durante décadas, a pecuária brasileira acostumou-se a disputar mercados internacionais com a convicção de que produzir bem e barato bastaria. Novas exigências sanitárias ou ambientais eram frequentemente recebidas como barreiras protecionistas, sob a expectativa de que a negociação política acabaria prevalecendo sobre elas. O impasse com a União Europeia mostra que esse tempo acabou.
A partir de setembro, a União Europeia poderá deixar de comprar carne bovina, aves, pescado e mel brasileiros porque o País não apresentou garantias suficientes de cumprimento das novas regras sobre o uso de antimicrobianos. Essa resolução não é de hoje. É de 2023. O governo, que se movimentou apenas a partir de 2025 para tratar do tema, tenta reverter a decisão por meio de negociações diplomáticas e de um novo protocolo de certificação. A iniciativa deve ser saudada. O problema é que ela chega tarde e dificilmente será suficiente para evitar os custos produzidos pelo atraso.
Especialista alerta: não interessa se é protecionismo
Como resumiu o especialista no setor Pedro de Camargo Neto, em entrevista ao Estadão, “não interessa se é protecionismo ou não”. Quem pretende disputar os mercados mais exigentes precisa estar preparado para cumprir suas regras enquanto continua negociando para modificá-las. Ao tomar conhecimento das normativas de 2023, outros países do Mercosul, como Argentina, Uruguai e Paraguai, se movimentaram rapidamente para adequar a cadeia produtiva e seguem como fornecedores ao bloco europeu.
Protocolo tenta corrigir atraso, mas biologia impõe limites
No Brasil, para contornar a situação, o governo está implementando um protocolo que acompanha todo o ciclo da cadeia produtiva para atender a essa exigência e a outras que já circulam pelos mercados mais restritivos. O problema é que nem toda demora pode ser corrigida por decreto. Na pecuária, a própria biologia impõe um limite que nenhuma negociação diplomática consegue acelerar.
Um frango completa seu ciclo produtivo em pouco mais de 40 dias. Um boi pode levar de 24 a 36 meses entre o nascimento e o abate, isso quando criado dentro de excelentes padrões tecnológicos. Isso significa que dois anos perdidos de preparação não podem ser recuperados em dois meses de força-tarefa. O novo protocolo pode ser tecnicamente adequado, mas seu efeito necessariamente será lento. Na bovinocultura, o tempo também é um insumo de produção.
Lição para o agro: antecipar tendências é essencial
Há ainda uma lição mais ampla. O agro acostumou-se a ser tratado com enorme condescendência pelo Estado brasileiro e parece ter imaginado que encontraria a mesma tolerância no mercado internacional. Não encontrou. Compradores globais exigem cada vez mais rastreabilidade, transparência e capacidade de demonstrar conformidade. O Brasil continua sendo uma potência agropecuária e, justamente por isso, já passou da hora de agir como tal antecipando tendências, preparando-se para mercados cada vez mais exigentes e deixando de tratar previsíveis mudanças regulatórias como se fossem surpresas de última hora.



