A hegemonia agrícola dos Estados Unidos enfrenta o maior desafio em décadas. O país, que por anos dominou o mercado global de grãos, carnes e outros produtos, vê sua participação encolher diante do avanço de concorrentes como Brasil e China. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), a participação americana nas exportações mundiais de soja caiu de 45% em 2010 para 33% em 2025, enquanto o Brasil saltou de 30% para 42% no mesmo período.
Brasil e China lideram ofensiva
O Brasil, impulsionado por ganhos de produtividade e expansão de área plantada, tornou-se o maior exportador de soja, milho e carne bovina. A China, por sua vez, investe pesado em tecnologia agrícola e logística, além de ampliar sua produção interna de grãos. "Os EUA estão perdendo competitividade em várias frentes", afirma José Carlos de Lima, analista do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (ICONE).
O relatório do USDA aponta que, em 2025, as exportações agrícolas dos EUA totalizaram US$ 180 bilhões, valor 8% inferior ao recorde de 2022. Em contraste, as exportações brasileiras cresceram 12% no mesmo período, alcançando US$ 150 bilhões.
Fatores estruturais e conjunturais
Diversos fatores explicam a perda de fôlego americana. O câmbio valorizado do dólar torna os produtos dos EUA mais caros no mercado internacional. Além disso, custos de produção mais elevados, especialmente com fertilizantes e energia, reduzem as margens dos agricultores. "A vantagem logística dos EUA está diminuindo, enquanto o Brasil investe em portos e ferrovias", destaca Maria Silva, professora de economia agrícola da USP.
Enquanto isso, a China, maior compradora de commodities agrícolas, diversifica suas fontes de suprimento. Em 2025, o país asiático importou 60% da soja brasileira, contra 40% da americana. A guerra comercial entre EUA e China, iniciada em 2018, acelerou esse movimento, com Pequim impondo tarifas retaliatórias sobre produtos americanos.
Impactos para o agronegócio global
A mudança na geografia agrícola tem implicações profundas. Países como Argentina e Ucrânia também ampliam sua participação. A Ucrânia, apesar da guerra, aumentou em 15% suas exportações de milho em 2025. "O cenário é de maior concorrência e preços mais voláteis", avalia Carlos Alberto de Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Agronegócio (ABAG).
Para os EUA, o desafio é reverter a tendência. O governo americano anunciou um pacote de US$ 5 bilhões para melhorar a infraestrutura rural e subsidiar a adoção de tecnologias sustentáveis. No entanto, especialistas consideram as medidas insuficientes diante da magnitude do problema.
Perspectivas futuras
As projeções do USDA indicam que, até 2030, o Brasil deve superar os EUA como maior exportador agrícola do mundo. A participação americana no mercado global de grãos pode cair para 25%, enquanto a brasileira subiria para 35%. "A hegemonia americana não acabou, mas está claramente em xeque", conclui Lima.



