Uma possível revisão do marco regulatório que disciplina atividades de mineração e infraestrutura em áreas com cavidades naturais subterrâneas pode representar um importante catalisador para a Vale (VALE3), destacam os analistas do Goldman Sachs. Segundo notícias na mídia, o governo federal estaria reavaliando o decreto que estabelece os critérios para classificação da relevância dessas cavidades.
Na visão dos analistas Marcio Farid, Emerson Vieira e Henrique Marques, que assinam o relatório, uma eventual flexibilização das regras representaria uma das mudanças regulatórias mais relevantes para a mineradora, uma vez que as atuais exigências de preservação são o principal obstáculo ao licenciamento de cerca de 1,6 bilhão de toneladas de reservas minerais, volume equivalente a aproximadamente 12% das reservas totais da Vale.
Potencial de destravamento de produção em Serra Norte
De acordo com o Goldman Sachs, a própria Vale já indicou que uma flexibilização das regras poderia destravar até 30 milhões de toneladas por ano de produção de minério de ferro de alto teor em Serra Norte, uma das operações mais competitivas da companhia em termos de custos e também a mais impactada pelas restrições regulatórias, que aceleraram o esgotamento das minas atualmente em operação.
Embora o banco não faça uma avaliação sobre a probabilidade de o decreto ser alterado, destaca que uma eventual mudança teria efeitos positivos de longo prazo sobre a vida útil das reservas, a trajetória de produção, a flexibilidade operacional, a estrutura de custos e a otimização da alocação de capital da Vale no Sistema Norte, especialmente em Serra Norte, na região de Carajás. Desde o pico registrado em 2016, a produção dessa operação caiu cerca de 40%.
Três benefícios diretos da mudança regulatória
O Goldman Sachs aponta três benefícios diretos caso a mudança regulatória seja implementada: compensação do esgotamento das reservas atuais, redução de custos e da relação estéril/minério (strip ratio), com menor necessidade de investimentos, além de maior flexibilidade para administrar a produção.
As divulgações da Vale indicam que as minas atualmente em operação em N4 e N5, em Serra Norte, sustentam aproximadamente 13 anos de atividade. Já a entrada em operação dos projetos N1, N2 e N3, que ainda aguardam licenciamento ambiental, ampliaria esse horizonte até 2048.
Depósitos inviabilizados e potencial de valor em menos de dois anos
O banco destaca ainda que seis dos nove corpos de minério identificados em Serra Norte (N2, N3 e N6 a N9) ficaram inviabilizados pelas condições de licenciamento estabelecidas em 2014, relacionadas à proteção de cavidades e das formações ferruginosas conhecidas como canga. Quatro desses depósitos (N6 a N9) continuam sem desenvolvimento e sequer estão contemplados no plano de mina e nas estimativas de reservas da companhia.
Como a Vale já possui infraestrutura e logística instaladas em Serra Norte, operação que funciona há décadas, o Goldman Sachs acredita, com base em conversas com participantes do setor, que uma mudança permanente no decreto poderia começar a gerar valor em menos de dois anos. O banco compara esse potencial desenvolvimento a um projeto de expansão (brownfield), caracterizado por menor intensidade de capital, implantação mais rápida e aumento da vida útil da produção.
Recomendação de compra e preço-alvo
Apesar de afirmar que ainda faltam detalhes sobre uma eventual alteração regulatória e que será necessário aguardar uma atualização da sequência de lavra da Vale para mensurar com maior precisão os impactos, o Goldman Sachs considera que uma mudança nos critérios de classificação das cavidades representaria um importante catalisador estrutural para a companhia.
O Goldman Sachs reiterou recomendação de compra para os ADRs (recibo de ações negociados nos EUA) da Vale, com preço-alvo de US$ 18.



