Estudo de 3 anos pode liberar surfe na Ilha dos Lobos, a 'melhor onda do Brasil'
Estudo de 3 anos pode liberar surfe na Ilha dos Lobos

Há 23 anos, ondas que formam um dos melhores tubos do Brasil — e possivelmente do mundo — quebram praticamente sozinhas em Torres, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul. Desde 2006, o surfe é proibido na Ilha dos Lobos, localizada a cerca de 1,8 quilômetro da costa gaúcha. Mas essa situação pode estar próxima de mudar.

Pesquisa de três anos avalia viabilidade ambiental

Pesquisadores irão analisar, durante três anos, a viabilidade ambiental da prática do surfe na modalidade tow-in dentro da área protegida. O estudo une conservação da biodiversidade, ciência e diálogo com a sociedade. O tow-in é uma técnica desenvolvida para encarar ondas gigantes: em vez de remar, o surfista é puxado por um jet ski, segurando uma corda até ganhar velocidade e soltá-la para surfar.

“É uma onda muito parecida com a de Teahupo'o, no Taiti. É perfeita. Quebra numa bancada rasa de pedra e dá um tubo muito bom. Um tubo bem largo, especial”, afirma Rodrigo Dornelles, o Pedra, um dos maiores nomes do surf do Rio Grande do Sul e único gaúcho a participar do circuito mundial (WCT). “Considero a melhor onda do Brasil. Já viajei bastante: Indonésia, Taiti, Havaí. Posso dizer que é uma das melhores do mundo”, arremata Pedra, que competiu por 18 anos no surfe profissional.

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Proteção ambiental e biodiversidade única

A onda não é apenas proibida — ela é protegida. A Ilha dos Lobos possui características ambientais inexistentes em outro ponto do país. É a única ilha marinha do litoral gaúcho e representa o principal ponto natural de concentração de pinípedes no Brasil, como lobos e leões-marinhos. O local desempenha papel fundamental para a conservação da fauna marinha e dos ecossistemas costeiros.

Os estudos foram autorizados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pelo Refúgio de Vida Silvestre (Revis) do local. A pesquisa é conduzida pelo Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos do Rio Grande do Sul (Gemars), da UFRGS, em parceria com a Associação de Surfistas de Torres (AST). O objetivo é avaliar, de forma técnica e responsável, os possíveis impactos, limites e protocolos necessários para compatibilizar a prática do surfe com a proteção da biodiversidade e a segurança das operações no ambiente marinho.

Monitoramento científico e sessões-teste

“Buscamos responder se existe algum efeito adverso ou não na abundância e no comportamento dos pinípedes e das aves marinhas costeiras. Vai envolver, ao longo de três anos, o monitoramento da variação do local com a prática do surfe tow-in e sem a prática”, descreve Federico Sucunza, coordenador de pesquisas do Gemars. Durante os estudos, serão organizadas sessões-teste de surfe para coleta de informações antes, durante e depois da prática do esporte. A ideia é comparar o antes e o depois para observar se há impactos no ecossistema local.

“Queremos entender qual é a carga máxima da unidade para estabelecer critérios de segurança, tanto em relação à biodiversidade, mas também para os surfistas. O surfe tow-in envolve motoaquáticas e outras embarcações. Buscamos entender qual é a densidade de pessoas e embarcações que o Revis poderia suportar sem trazer prejuízos à vida marinha”, acrescenta Sucunza.

Turismo sustentável e expectativas

A expectativa é de que os estudos contribuam não apenas para avaliar a viabilidade da prática esportiva, mas também para ampliar o entendimento sobre a dinâmica ecológica da região e fortalecer estratégias para o turismo sustentável. A 'onda proibida' da Ilha dos Lobos, em Torres, é considerada por especialistas como uma das melhores do mundo, e sua liberação controlada pode trazer benefícios econômicos e científicos para a região.

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