Empreendedorismo sênior: 4,3 milhões de brasileiros 60+ comandam negócios
Empreendedorismo sênior: 4,3 milhões de brasileiros 60+

O Brasil caminha para ser o quinto país com maior população de pessoas com 60 anos ou mais até 2030, e uma transformação econômica ganha força: 4,3 milhões de brasileiros nessa faixa etária comandam seus próprios negócios. Impulsionado pela longevidade crescente e pelos avanços em saúde, o empreendedorismo sênior se consolida como pilar da economia prateada nacional. Dados de 2025 do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) revelam que, pela primeira vez, 63% dos seniores entre 65 e 74 anos empreendem por oportunidade, e não por necessidade.

Da biblioteca ao ateliê: a história de Elazimar

Elazimar Menezes de Souza, de 70 anos, nascida em Rio Bonito (RJ) e criada em Niterói, transformou a pandemia em um ponto de virada. Durante 48 anos, trabalhou como bibliotecária na Universidade Federal Fluminense (UFF). Decidida a fazer uma transição de carreira quando faltassem cinco anos para se aposentar, ela pretendia trabalhar com as mãos, como seus pais. Em 2020, o isolamento acelerou seus planos. Unindo a paixão por artesanato à experiência de produzir mochilas e bolsas, ela criou bonecas de pano. Quando sua filha Maria e neta Maria Eduarda a visitaram a distância, Elazimar mostrou as cinco primeiras bonecas. A filha fotografou, publicou nas redes sociais e, em 15 minutos, todas foram vendidas. Assim nasceu a marca Abayomi Menezes — 'encontro precioso' em iorubá, representando a união das três mulheres.

Quebra de paradigmas e barreiras culturais

O número de donos de negócios com 60 anos ou mais cresceu 53% entre 2012 e 2024, segundo a PNAD Contínua (2024). No entanto, o caminho é marcado por barreiras culturais, como o etarismo. Elazimar enfrentou resistência: alguns amigos estranharam sua decisão e diziam que, após a aposentadoria, 'não fariam mais nada para ninguém'. Ela, porém, sempre quis continuar ativa e não se arrepende. 'Um dos maiores desafios é o autoetarismo: achar que você não tem mais condições de produzir. Nosso trabalho é mostrar que a pessoa continua ativa, capaz de tocar um negócio. Sessenta anos já não é mais aquele idoso de bengala. É uma geração que quer continuar realizando sonhos', afirma Gilvany Theodoroviz Isaac, gestora da pauta Futuridade 60+ do Sebrae. 'Para o empreendedorismo brasileiro, essa geração representa a força e a coragem de continuar. É a prova de que os sonhos não envelhecem', completa.

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Experiência e propósito como diferenciais

Para a especialista, o desejo de seguir produzindo caminha lado a lado com a experiência profissional anterior e a busca por negócios com propósito. 'A experiência é a maior vantagem competitiva dessa geração. Ela traz conhecimento, rede de contatos e capacidade de planejamento. O empreendedor sênior costuma ter mais concentração, menos distrações e consegue produzir mais, dedicando menos horas ao negócio', explica Theodoroviz. Elazimar, acostumada a pesquisar antes de iniciar projetos, estudou o mercado e encontrou seu propósito. 'Descobri que apenas 7% das bonecas disponíveis eram pretas. Isso me chocou', lembra. Ela confecciona bonecas de diferentes tons de pele sob encomenda, com o objetivo de ampliar a representatividade e fortalecer a autoestima de crianças negras. As bonecas de pano de 30 e 40 centímetros, com roupas, tênis e penteados intercambiáveis, são o carro-chefe do ateliê.

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Atendimento humanizado e troca intergeracional

Cerca de 80% das vendas da Abayomi Menezes são feitas por adultos que buscam presentes com significado. 'Muitos pais chegam e contam que o filho estuda em uma escola onde quase todas as crianças são brancas. Eles querem que a boneca ajude a ampliar esse olhar para a diversidade', relata Elazimar. A senioridade também se reflete no atendimento: paciência, empatia e preferência pelo presencial. 'Jamais colocaria uma mensagem automática no meu WhatsApp. Entendo quem automatiza, mas é diferente. Você coloca o seu amor no que faz. Eu quero dar atenção, quero falar diretamente com o meu cliente e entender o desejo dele', destaca. Embora a tecnologia seja um desafio para muitos, Elazimar afirma que sua maior dificuldade é criar vídeos e manter as redes atualizadas. 'Ninguém domina tudo. Você precisa reconhecer suas limitações e dialogar com quem tem habilidades diferentes. Essa troca intergeracional é importante porque um complementa o outro', completa. Na Abayomi Menezes, a filha Maria é sócia e cuida da presença digital; a neta Maria Eduarda criou o perfil nas redes; o neto Caio auxilia na logística; e o filho Paulo pinta as sapatilhas das bonecas.

Resiliência e profissionalismo

João Batista Fonseca Borba, de Goiás, após 30 anos em um banco, transformou o hobby com orquídeas em um empreendimento familiar: o Orquidário Batista reúne 20 mil plantas em 2 mil metros quadrados. Segundo o GEM 2025, 46% dos novos empreendedores brasileiros abrem negócios motivados pela tradição familiar. Dados do Sebrae (2024) mostram que 89,7% dos negócios liderados por pessoas 60+ superam os dois primeiros anos, contra 79,5% da média nacional. Hoje, as bonecas de Elazimar chegam a Estados Unidos, Reino Unido, Azerbaijão e Angola. Aos 70 anos, ela planeja oferecer cursos para formar novas bonequeiras. O Sebrae, por meio de iniciativas como Sebrae Delas, Afroempreendedorismo e Economia Prateada, apoiou sua estruturação. 'O Sebrae me deu segurança para dizer que o meu ateliê é o meu negócio. Antes eu fazia, mas não tinha essa postura. Hoje eu sei o valor do meu trabalho e sei que posso negociar, crescer e continuar aprendendo', afirma. Para ela, a transformação se resume em uma palavra: profissionalismo.