El Niño acende alerta em ações agrícolas na Bolsa, diz XP
El Niño acende alerta em ações agrícolas na Bolsa, diz XP

A confirmação do El Niño por órgãos meteorológicos internacionais acionou o radar do mercado financeiro para as oscilações na produção do campo. De acordo com uma análise realizada pela XP Investimentos e divulgada na última segunda-feira (15), os investidores já começaram a precificar os potenciais impactos nas safras, mesmo que o tamanho real do prejuízo nas lavouras seja totalmente incerto. Neste cenário, cinco empresas da Bolsa brasileira podem ser afetadas: SLC (SLCE3), BrasilAgro (AGRO3), 3Tentos (TTEN3), São Martinho (SMTO3) e Jalles (JALL3). Os analistas Leonardo Alencar, Pedro Fonseca e Leonardo Paiva, que assinam o relatório, basearam suas projeções em dados de eventos passados de forte intensidade.

Para calibrar as estimativas atuais, o banco utilizou o intervalo de 2015/2016 como parâmetro para um cenário de estresse extremo, enquanto os registros de 2023/2024 serviram de base para um evento de escala intermediária. O estudo enfatiza que as comparações consideram a capacidade produtiva teórica de cada período, “e não às perdas realizadas, uma vez que mudanças de área plantada podem distorcer materialmente a análise”, diz o relatório da XP Investimentos.

Diagnóstico por tipo de cultura agrícola

O impacto do aquecimento das águas do Pacífico varia de forma drástica entre as commodities acompanhadas pela XP Investimentos:

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  • Complexo sucroenergético: Aparece entre as culturas de maior vulnerabilidade. O clima atípico ameaça reduzir o rendimento dos canaviais em território brasileiro e tem potencial para encolher o volume remanescente voltado à exportação em grandes produtores globais, como Tailândia e Índia.
  • Milho: O foco de preocupação recai sobre a segunda safra, cujo ciclo depende fortemente do padrão de umidade e pode sofrer gargalos caso ocorram atrasos no plantio. Os analistas afirmam que essa ameaça deve se materializar de forma mais nítida na reta final de 2026.
  • Soja: Apresenta um comportamento historicamente mais estável diante do fenômeno em âmbito nacional. Os problemas de desenvolvimento tendem a se concentrar na região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), ao passo que as plantações dos estados do Sul possuem chances de registrar incremento de volume.
  • Trigo: Apresenta vulnerabilidade na Região Sul, onde a instabilidade climática eleva as chances de chuvas fora do comum e perdas causadas por geadas.
  • Culturas diversas: O algodão carece de um padrão de comportamento padronizado frente ao fenômeno, guardando riscos de quebra na Bahia apenas se o cenário se agravar muito. Arroz e feijão registram respostas estatísticas fracas e sem constância entre os ciclos.

Açúcar e álcool

O panorama de curto prazo para o segmento de Açúcar e Etanol é visto com cautela pela XP Investimentos, que projeta preços pressionados em uma conjuntura de moagem acelerada. Por outro lado, os analistas relembram que quebras de safra em outros continentes (a exemplo das perdas de oferta na Índia no ciclo de 2015/2016) historicamente valorizam o açúcar e beneficiam as companhias brasileiras no longo prazo.

Segundo o documento, as duas principais usinas de capital aberto do país adotaram caminhos opostos na proteção de suas receitas para o período de 2026/2027:

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  • Jalles Machado (JALL3): Implementou uma comercialização defensiva mais ágil após elevar seu potencial de fabricação de açúcar. A empresa garantiu a venda de praticamente todo o volume projetado para a safra a um valor médio fixado perto de R$ 2.400 por tonelada. Na visão da XP, a postura da usina se mostrou mais acertada considerando os patamares atuais do mercado físico.
  • São Martinho (SMTO3): Optou por manter uma fatia maior de seus estoques exposta às oscilações diárias de preços. A empresa possui travas para cerca de 40% do volume esperado da safra, com preço médio estabelecido em US$ 16,1 centavos de dólar por libra-peso, o que equivale a R$ 2.101 por tonelada.

Mesmo com essas proteções comerciais, os analistas enxergam dificuldades para o setor no curto prazo. “Seguimos vendo um cenário desafiador no curto prazo para ambas as companhias, com fundamentos ainda apontando para pressão sobre os preços de açúcar e etanol”, diz o relatório da XP Investimentos.

Grãos

De acordo com os analistas, para os grupos focados no cultivo de grãos, o principal obstáculo agronômico está na probabilidade de estiagens prolongadas e termômetros elevados nas regiões Norte, Nordeste e na porção superior do Centro-Oeste. Essa geografia concentra 52,6% das fazendas da SLC Agrícola (SLCE3) e 54,6% da área explorada pela BrasilAgro (AGRO3).

A infraestrutura de irrigação surge como ferramenta de mitigação de perdas, conforme o relatório. A SLC Agrícola planeja alcançar 62 mil hectares irrigados (7,5% da sua área cultivável), impulsionada por investimentos em expansão nas frentes de Piratini, Paysandu, Palmares, Pamplona e Paladino. Já a BrasilAgro mantém 13,8 mil hectares cobertos por sistemas artificiais de água (8,9% do seu portfólio de terras).

Apesar desses mecanismos de defesa, a XP vê uma relação de risco e retorno desfavorável para ambas as ações. Os analistas apontam desvantagens numéricas especialmente para a SLC Agrícola. “De forma geral, embora ambas as companhias estejam expostas a riscos climáticos negativos, as perdas potenciais de produtividade e o cenário mais fraco para o rendimento do Fluxo de Caixa Livre (FCL) parecem mais pronunciados para a SLC”, aponta o documento.

No quesito comercial, a SLC realizou travas para 18,4% da sua colheita de soja a US$ 11,82 por bushel, correspondendo a R$ 134,6 por saca, ao passo que a BrasilAgro segue sem proteções financeiras para o ciclo 2026/2027.

Dinâmica favorável para 3Tentos

A 3Tentos (TTEN3) segue no sentido inverso das produtoras de grãos tradicionais, de acordo com a XP, sendo classificada pelos analistas com o desenho operacional mais promissor diante das projeções climáticas. O Rio Grande do Sul (RS), responsável por aproximadamente 7% do volume de grãos in natura do país, sofreu com estiagens crônicas e quebras de safra nos anos anteriores.

Como o El Niño historicamente reverte a seca e aumenta o volume de chuvas no Sul, o banco identifica um cenário muito favorável de risco e retorno para o negócio. “Vemos o fenômeno como assimetricamente positivo para a companhia”, afirma o relatório. A receita da empresa possui forte ligação com as fazendas gaúchas. No acumulado de 2025, o estado gerou 52% do faturamento da divisão de comercialização, perto de 60% do processamento de soja e cerca de 65% da comercialização de insumos agrícolas.

A XP conclui que a volta do regime regular de chuvas deve desencadear ganhos simultâneos em toda a operação. O cenário projeta que a alta na umidade do solo “pode gerar uma melhora abrangente no desempenho operacional da companhia”, impulsionada por lavouras mais cheias que expandem os resultados do esmagamento, originação facilitada no segmento de trading e um salto na produtividade local, o que estimula os produtores a comprarem mais tecnologia e eleva a rentabilidade do portfólio de insumos.