A Copacol, cooperativa agroindustrial do Paraná, lidera o ranking CPG Leaders 100, conduzido pela GrowinCo, que mede a capacidade de empresas de alimentos e bebidas no Brasil de transformar a co-manufatura em instrumento de crescimento, inovação e escala. O levantamento, compartilhado com exclusividade pelo InfoMoney, colocou a cooperativa à frente de gigantes como Unilever, JBS Brasil, Nestlé e Mondelez.
O ranking CPG Leaders 100
O estudo analisou mais de 21 mil empresas do mercado brasileiro de bens de consumo e rastreou 168.992 lançamentos de produtos de alimentos e bebidas realizados entre 1996 e 2026. Desse total, 29.938 lançamentos foram feitos por meio de parcerias de co-manufatura. Para esta primeira edição, 135 organizações atenderam aos critérios mínimos de elegibilidade e receberam uma pontuação de 0 a 100 baseada em três pilares: escala, inovação e network.
O top 10 é composto por: Copacol (85,6), Unilever (82,2), Linea (80,6), JBS Brasil (80,2), Native Orgânicos (79,9), Nestlé (79,8), Catupiry (79,5), Korin Agropecuária (77,9), Mondelez (77,7) e Mais Mu (75,4). O ranking foi desenvolvido para preencher uma lacuna histórica do setor, avaliando a capacidade das empresas de terceirizar de forma madura, construir relações com parceiros industriais e usar essa estrutura para acelerar lançamentos e expandir portfólio.
A terceirização deixou de ser exceção
A GrowinCo nasceu há sete anos em torno da tese de que a terceirização industrial ganhava status de ferramenta estratégica. Segundo Raphael Traticoski, CEO da GrowinCo, “hoje, 18% de todos os produtos lançados em alimentos e bebidas já são feitos através de terceirização. Esse é um dado inédito”. O número ajuda a explicar por que a discussão ganhou tração: num ambiente em que as demandas do consumidor mudam rápido, nem sempre faz sentido para uma companhia adaptar suas próprias fábricas a cada novo nicho.
Na leitura do executivo, a terceirização responde a dois problemas centrais: reduz a necessidade de investimento pesado em ativos industriais e acelera a entrada em novas categorias. Um exemplo citado é o da Danone com YoPRO: “Quando o YoPRO começou, era terceirizado. A empresa estava entrando em uma nova categoria e isso só foi possível com terceirização. Depois, com o sucesso do produto, a Danone investiu e fez o insourcing”.
Cooperativa no topo
A liderança da Copacol surpreendeu até a própria GrowinCo. “Nos surpreendemos com empresas que a gente não sabia que tinham um trabalho tão forte de terceirização. A Copacol, por exemplo: conhecíamos o mercado de proteína. O que a empresa fez foi: uma vez que já tinha a logística congelada, começou a oferecer produtos congelados como ervilhas e legumes”, afirmou Traticoski. O caso mostra que a co-manufatura pode ser uma alavanca de expansão para grupos que já têm escala industrial relevante, mas querem ocupar novas categorias sem replicar toda a estrutura produtiva.
Segundo a análise da GrowinCo, cooperativas bem estruturadas podem competir em pé de igualdade com multinacionais exatamente por combinarem produção própria relevante com uma rede externa bem coordenada. “O ranking mostra que governança e capacidade de coordenação importam tanto quanto tamanho. Cooperativas bem estruturadas conseguem construir redes produtivas tão sofisticadas quanto as das multinacionais e competir em pé de igualdade”, disse o executivo.
Espaço para crescer
Apesar da evolução, o mercado brasileiro de co-manufatura ainda é pouco maduro quando comparado a Estados Unidos e Europa. “Existem mercados de terceirização bem mais maduros que o brasileiro. No europeu, 50% do volume de vendas de alimentos e bebidas é feito com terceirização”, disse o CEO. No Brasil, faltam fabricantes dedicados exclusivamente à produção para terceiros. “Hoje, não existe no Brasil um parque fabril voltado para terceirização. Em geral, são indústrias que têm suas próprias marcas e fazem terceirização com a capacidade que sobra. Em mercados mais consolidados, existem indústrias 100% white label”, afirmou.
Essa diferença pesa em custo, especialização e qualidade da oferta. Dados da CNI mostram que 25% da indústria está ociosa. “A gente precisa fazer algo com isso”, disse Traticoski. Com fábricas mais perto dos consumidores, os custos de logística também cairiam, redução que poderia ser repassada aos clientes finais. O próprio custo da produção também poderia ser reduzido: “Terceirizadores são mais eficientes do ponto de vista de custo porque conseguem diluir em um volume maior. Concentrar a produção em maior escala gera benefícios principalmente para as indústrias que desenvolvem relacionamentos de longo prazo”, explica.
Hoje, a maior parte das terceirizações ainda acontece dentro do Brasil, mas há categorias em que as marcas já buscam produção fora do país, como molhos, queijos e massas da Itália, azeites da Espanha e snacks fritos e ramén da China. “Esse é um movimento que não existia com a força que tem hoje”, afirmou. Para o executivo, a pandemia acelerou o movimento de terceirização devido às disrupções nas cadeias de abastecimento e à ascensão das marcas próprias do varejo. “Quando você combina grandes marcas terceirizando e redes varejistas lançando marcas próprias, você tem um mercado muito mais representativo”, disse.
Para a GrowinCo, a co-manufatura vai ganhar ainda mais espaço na medida em que a indústria de consumo precise responder mais rápido a mudanças de demanda, nichos de produto e pressão por eficiência. “Tem uma enorme oportunidade no Brasil. O negócio de manufatura e de gestão de marcas são diferentes. Faz sentido ter negócios especializados e tem espaço para isso aqui”, resume. Na indústria de consumo, a vantagem competitiva do futuro pode estar menos em possuir a fábrica — e mais em saber orquestrar a rede certa.



