Femosfera: o movimento que ensina mulheres a tratar homens como 'ativos de risco'
Femosfera: mulheres tratam homens como 'ativos de risco'

A 'femosfera', um ecossistema de influenciadoras, fóruns e podcasts, propõe que as mulheres abandonem o romantismo e avaliem os homens como se fossem um ativo de risco. O movimento, que ganha força nas redes sociais, defende que os relacionamentos heterossexuais são estruturalmente desequilibrados e que as mulheres devem adotar uma postura estratégica e calculista para se protegerem.

O que é a femosfera?

O termo foi cunhado pela pesquisadora Jilly Kay, da Universidade de Loughborough, no Reino Unido. Em entrevista à BBC News Mundo, ela explicou que a femosfera não representa o mesmo tipo de ameaça social que a machosfera, mas compartilha algumas táticas e linguagem. 'Embora certas comunidades reproduzam algumas das táticas e da linguagem, ou por vezes desumanizem os homens da mesma forma que eles fazem com as mulheres, isso não significa que sejam equivalentes', disse Kay.

Para a ativista Onyinyechi Ezeanowi, especialista em ambientes digitais, 'não existe um equivalente feminino da machosfera. Não temos mulheres ensinando outras mulheres a abusar ou a serem violentas com os homens. Estamos ensinando-lhes o empoderamento, para que possam se defender e lutar por seus direitos e igualdade.'

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A 'pílula rosa' e a realidade brutal

A 'pílula rosa' é uma referência à 'pílula vermelha' do filme Matrix, que simbolizava o acesso a uma realidade oculta. Na femosfera, essa realidade é a constatação de que, apesar das lutas feministas, o mundo continua a funcionar a favor dos homens. A disparidade salarial e previdenciária continua enorme, poucas mulheres alcançaram cargos de destaque, e o sistema judiciário não responde adequadamente a casos de violência doméstica e assédio.

Kay explica que muitas figuras na femosfera se identificam como feministas, mas rejeitam o princípio da igualdade porque este as decepcionou. 'A única coisa que você pode fazer é aceitar essa ideia muito tradicional de que homens e mulheres têm papéis muito definidos e diferentes na sociedade', afirma.

Conceitos e classificações

Na femosfera, as mulheres são incentivadas a se tornarem 'Mulheres de Alto Valor' (MAV), focando em independência financeira, desenvolvimento pessoal e paz de espírito. O homem ideal é o 'Homem de Alto Valor' (HAV): provedor, financeiramente estável, emocionalmente maduro, respeitoso, leal, protetor e generoso. Seu oposto, o 'Homem de Baixo Valor' (MBV), é mesquinho, instável ou não oferece nada em troca.

As regras são rígidas: uma MAV não dá segundas chances. Se um homem sugere um primeiro encontro barato ou propõe dividir as despesas, ele é rejeitado. O distanciamento emocional é um mecanismo de defesa. 'Suporte emocional é visto como um recurso escasso', diz Kay.

Entre o desencanto e a resignação

Para Kay, a femosfera reage a algo real: o namoro heterossexual é genuinamente difícil para as mulheres, devido à normalização da pornografia misógina, aos aplicativos de namoro e à ameaça persistente de violência sexual. No entanto, ela critica a solução proposta: 'Estupro e violência sexual são frequentemente vistos como comportamentos inatos em alguns homens... então você não pode fazer nada além de evitar esses homens de baixo valor.'

Kay conclui: 'É uma ideia muito realista, mas, em última análise, muito fatalista. É a ideia de que devemos abandonar a política e desistir de qualquer tentativa de melhorar a sociedade.' Ela teme que essa visão seja o que as mulheres jovens passarão a entender por feminismo.

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