O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) deve se reunir nesta terça-feira (14) para anunciar o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina, de 30% para 32%. A medida, discutida nos últimos meses por integrantes do governo, gera preocupações entre especialistas quanto ao risco de desgaste em motores mais antigos ou sem calibração específica para essa nova composição.
Riscos para motores e componentes
Segundo engenheiros, um dos principais desafios é a compatibilidade dos materiais, especialmente em veículos importados ou mais antigos, projetados para rodar apenas com gasolina e desenvolvidos para teores menores de etanol. O etanol anidro, embora desidratado, tem capacidade de absorver água do ambiente, podendo levá-la ao interior do motor. A presença de água afeta componentes metálicos e aumenta a condutividade elétrica, favorecendo a corrosão eletroquímica.
Componentes que entram em contato direto com o combustível, como tanque, boia, bomba de combustível, linhas metálicas ou plásticas, bico injetor, câmara de combustão, pistões e vedações, precisam estar preparados para a nova concentração. Rogério Gonçalves, engenheiro e diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), explica: "As avarias principais que podem ocorrer seriam de corrosão ou desgaste nos componentes do sistema de injeção, pois podem provocar falhas de funcionamento, aumento das emissões e consumo e até dano total, principalmente na bomba e injetores."
Impacto no consumo e na manutenção
Gonçalves afirma que o consumo tende a aumentar tanto em modelos flex quanto em veículos exclusivamente a gasolina, devido ao menor poder calorífico do etanol. Enquanto um quilograma de etanol hidratado fornece cerca de 6.300 quilocalorias (kcal), a gasolina A fornece cerca de 10.400 kcal. A variação no consumo pode ser imperceptível no uso cotidiano, segundo o especialista.
No mercado de manutenção, Fábio Rhoden, sócio proprietário da oficina Flacht Motorsport & Classic Center, destaca que borrachas e mangueiras são os componentes mais suscetíveis, podendo ressecar e causar vazamentos. "Além disso, a bomba de combustível e os bicos injetores podem oxidar ou travar, porque o álcool facilita a corrosão dessas partes metálicas e plásticas", afirma. O motorista pode notar dificuldade na partida pela manhã, especialmente em veículos com 20 ou 30 anos de fabricação, equipados com carburador ou injeção eletrônica simples, que não ajustam automaticamente a mistura.
Desafios para veículos antigos e importados
Em veículos que não conseguem se ajustar à nova mistura, o motor trabalha em temperaturas mais elevadas e pode apresentar falhas frequentes. Modelos importados modernos sem tecnologia flex chegam ao limite de compensação da ECU (Unidade de Controle Eletrônico), registrando aumento expressivo no consumo. "Os carros antigos (carburados ou com injeções simples) não conseguem se ajustar sozinhos para queimar tanto etanol", alerta Rhoden. Esses veículos podem apresentar oscilação da marcha lenta, perda de potência e engasgos durante acelerações.
A elevação do teor de etanol também pode acelerar o entupimento do filtro de combustível e antecipar a troca das velas de ignição devido ao maior calor gerado na combustão. A substituição de componentes pode ser cara: cada bico injetor para BMW 320 (2012-2019) custa a partir de R$ 1.256, e a bomba de combustível de um Range Rover Evoque (2011-2019) custa mais de R$ 1.900, segundo Vinicius Giungi, proprietário da Benimports.
Posições da Anfavea e da indústria do etanol
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) defende a realização de mais estudos antes da implementação. Igor Calvet, presidente da entidade, afirma: "Nós temos discutido, na verdade, é que o aumento da mistura deve ser precedido de testes. Esse é o único ponto da Anfavea." Segundo ele, a adoção da mistura com 32% exige ensaios de engenharia com margem de segurança, conforme normas da ABNT.
Por outro lado, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) defende a medida, afirmando que a proposta foi construída no âmbito do programa Combustível do Futuro, com participação de órgãos do governo e instituições de pesquisa. Testes realizados pelo Instituto Mauá de Tecnologia, em São Paulo, indicaram viabilidade técnica para a ampliação, sem impactos em desempenho ou desgaste em veículos representativos da frota. A Unica também destaca que o setor tem capacidade para atender ao aumento da demanda, estimado em cerca de 1 bilhão de litros adicionais por ano, enquanto a produção prevista para a safra pode crescer cerca de 4 bilhões de litros, reduzindo a importação de aproximadamente 800 milhões de litros de gasolina por ano.



