Durante muito tempo, o azeite ocupou um lugar quase solene na mesa brasileira. Vinha em garrafas de vidro escuro, carregava alguma referência ao Mediterrâneo no rótulo e era derramado com cuidado sobre saladas, massas e pães, como se fosse precioso demais para a cozinha cotidiana. Essa relação começa a mudar. O azeite ganhou embalagens coloridas, nomes mais informais, versões para diferentes usos e garrafas squeeze que convidam o consumidor a apertar sem cerimônia.
Benza: uma marca que traduz a mudança
Uma das marcas que ajudam a contar essa transformação é a Benza, criada por Carolina Cury e lançada em 2025. A marca chegou ao mercado com uma proposta baseada em frescor, origem transparente e facilidade de uso, apostando desde o início no formato squeeze. O portfólio divide-se em duas categorias de compreensão imediata: o Benza Na Panela, mais suave e pensado para preparações cotidianas, e o No Prato, mais frutado e encorpado, indicado para finalizações.
A escolha dos nomes não é apenas uma boa solução de comunicação; traduz uma transformação importante. Em vez de falar com o consumidor apenas por meio de acidez, cultivares e descrições sensoriais, a marca começa por uma pergunta prática: como você pretende usar este azeite? A Benza não está sozinha — marcas como Zétona e Lóv também apostaram no squeeze e em uma linguagem mais leve, indicando um movimento maior em curso.
Embalagem squeeze: praticidade que conquista a cozinha
O formato squeeze talvez seja a face mais visível dessa nova fase. Ele retira o azeite do lugar cerimonial e o aproxima da rotina de quem cozinha arroz, prepara ovos, assa legumes ou faz molhos. As bisnagas já são usadas há anos em cozinhas profissionais por oferecerem rapidez, precisão e controle durante o preparo, qualidades que agora chegam às bancadas domésticas.
Quando feitas com materiais que oferecem boa barreira à luz e fechamento eficiente, essas embalagens ajudam a proteger o conteúdo. O bico dosador permite maior controle, reduz desperdícios e permanece fechado entre usos. No entanto, o squeeze não conserva o produto indefinidamente: após aberto, qualquer embalagem sofre os efeitos do oxigênio, e o azeite deve ser guardado longe da luz, do calor e, especialmente, do espaço ao lado do fogão.
O consumidor aprende a diferenciar
A mudança de embalagem vem acompanhada de outra transformação, menos visível e talvez mais importante: o consumidor começa a entender que azeite não é uma categoria única. Origem, safra, variedade, terroir, momento da colheita e perfil sensorial passaram a fazer parte de uma conversa antes restrita a produtores, chefs e especialistas. Algo semelhante ao que ocorreu com o vinho e, mais recentemente, com os cafés especiais.
“Guardadas as diferenças entre as duas cadeias produtivas, vejo o azeite brasileiro seguindo um caminho muito semelhante ao dos cafés especiais. Mas, antes deles, acredito que foi o vinho quem abriu essa estrada”, afirma a azeitóloga Ana Beloto. De fato, foi o vinho que ensinou boa parte dos consumidores a observar safra, variedade e região produtora. O café especial ampliou esse repertório, aproximando temas como fazenda, altitude e perfil sensorial de um produto consumido diariamente.
Hoje cresce a curiosidade por variedades como Koroneiki, Arbequina, Arauco, Coratina, Grappolo e Picual. Também aumenta o interesse por azeites mais frutados, amargos ou picantes, pelas harmonizações e até pelo uso em sobremesas. Rafael Buchabqui, sommelier de azeite e criador de conteúdo sobre o tema, concorda com a comparação, mas lembra que o mercado ainda precisa amadurecer: “No caso do azeite, ainda há um problema de fiscalização e informação. Temos um percurso árduo a percorrer, mas o consumidor já está começando a diferenciar melhor as coisas.”
Frescor como diferencial do azeite brasileiro
Diferentemente do vinho, o azeite não é um produto de guarda. Quanto mais próximo da colheita e do envase for consumido, maior tende a ser sua intensidade aromática e sensorial. É por isso que a indicação da safra começa a ganhar importância. O Benza No Prato, por exemplo, é produzido com a safra de 2026, destacada pela empresa como uma das mais recentes disponíveis no mercado brasileiro.
A evolução do consumo ocorre enquanto a olivicultura nacional constrói sua identidade. A produção comercial brasileira é recente, mas já reúne diferentes regiões, cultivares e perfis sensoriais. Um azeite da Serra da Mantiqueira não é necessariamente semelhante a outro da Campanha Gaúcha. Para Ana Beloto, essa diversidade não representa ausência de identidade, mas sim parte de sua formação. “O Brasil não compete por volume, mas por excelência. Nossa identidade será construída pela capacidade de transformar nossos terroirs em azeites com personalidade própria.”
O frescor aparece como um dos principais argumentos do azeite nacional. Ainda existe a percepção de que o importado é superior, mesmo que muitos produtos do mercado pertençam a faixas intermediárias de qualidade. “O grande diferencial do nosso azeite é o frescor. Nada se compara a um azeite novo e produzido perto de nós”, afirma Rafael Buchabqui.
Benza avança no mercado profissional com Bag in Box
Depois de levar a lógica dos perfis de uso ao consumidor doméstico com os squeezes, a Benza inicia uma nova etapa com embalagens Bag in Box de cinco litros para bares e restaurantes, também nas versões Na Panela e No Prato. O sistema armazena o azeite em uma bolsa protegida por caixa; conforme o conteúdo é usado, a embalagem interna se retrai, reduzindo o contato com o ar, enquanto a estrutura externa protege o produto da luz.
Em cozinhas profissionais, essa diferença é significativa: conservação, facilidade de dosagem, limpeza, redução de desperdício e custo por litro adequado ao alto consumo. O lançamento mostra também que os movimentos entre cozinhas domésticas e profissionais ocorrem nos dois sentidos — o squeeze levou para casa uma ferramenta de chefs, enquanto o Bag in Box devolve o azeite aos restaurantes em uma embalagem pensada para o ritmo do serviço.
Para apresentar o novo formato, a Benza reuniu estabelecimentos que passaram a trabalhar com seus azeites. Em São Paulo, participam Kio, Broca, LosDos Cantina, Vesu Pizzaria e Amarello Café; em Belo Horizonte, a Casa Azeite representa o projeto. No Kio, em Pinheiros, foi criado o Kioprese, uma releitura da caprese sobre massa folhada com creme de tofu, pesto de nori e picles de tomate com alga hijiki. O azeite entra na finalização e liga as referências mediterrâneas e japonesas do prato, mostrando que o ingrediente foi considerado desde a concepção da receita.
Novas categorias e o futuro do azeite no Brasil
As novas embalagens não são o único sinal de diversificação do mercado. Outra categoria ainda pouco conhecida no Brasil é a dos azeites não filtrados, que apresentam aparência turva e perfil sensorial mais intenso. “Temos acompanhado uma tendência de valorização de azeites premium, com identidade sensorial mais evidente, como os azeites não filtrados”, afirma Alfredo Maldonado, diretor comercial da América Latina da Costa d'Oro, que oferece no Brasil o Il Grezzo, azeite extravirgem não filtrado. No entanto, a ausência de filtragem não basta para transformar automaticamente qualquer azeite em um produto superior — variedade, colheita, extração, armazenamento e tempo desde a produção continuam determinantes.
Talvez esteja aí a verdadeira nova cara do azeite: não apenas em frascos mais alegres, nomes mais fáceis ou palavras como terroir e cultivar, mas em uma mudança na maneira de escolher e utilizar um ingrediente presente todos os dias na cozinha. O vinho e o café especial mostraram que conhecer a origem pode aumentar o prazer sem transformar o consumo em prova. O desafio do azeite será fazer o mesmo: explicar que existe complexidade dentro da embalagem, sem convencer o consumidor de que ele precisa fazer um curso antes de apertá-la.



