Assentamento Pirituba II: 40 anos de referência em desenvolvimento rural
Assentamento Pirituba II: 40 anos de referência rural

Colher alimentos frescos cultivados no quintal de casa e compartilhar a produção com os vizinhos é um estilo de vida desejado por muitos. Para as famílias do Assentamento Pirituba II, localizado entre Itaberá e Itapeva, no interior de São Paulo, essa realidade faz parte do cotidiano há 40 anos. Voltado ao cotidiano rural e à produção agroecológica por meio da organização comunitária, o assentamento é considerado um dos mais tradicionais do estado. Segundo a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), o local tornou-se referência graças ao trabalho coletivo desenvolvido ao longo dos anos.

O g1 conversou com Vagner da Silva Carvalho, de 44 anos, educador ambiental e um dos responsáveis pelo assentamento, que relembrou como as famílias migraram para a área. “A história da fazenda está ligada à luta pela terra e à reforma agrária no Sudoeste Paulista. Ela era tomada por grupos de holandeses, que tinham a posse da terra de forma grilada. No dia 13 de maio de 1984, cerca de 300 famílias ocuparam essa área denunciando os posseiros que existiam na fazenda pública do estado. Assim surgiu o primeiro assentamento de reforma agrária na nossa região”, explicou.

Estrutura em agrovilas

Segundo Vagner, o Assentamento Pirituba II é dividido em sete agrovilas. As duas primeiras foram implantadas em 1984, seguidas pela terceira em 1986. A quarta surgiu em 1990 e, no ano seguinte, foi criada a quinta agrovila. A sexta foi implantada em 1996. Já a sétima, assim como outros assentamentos da região, começou a ser estruturada a partir dos anos 2000 e 2010.

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“As agrovilas são formadas por comunidades rurais e têm mais facilidade na infraestrutura. O assentamento Pirituba é reconhecido no estado por sua organização muito forte. As agrovilas surgiram como uma forma de organização comunitária dentro de um processo da reforma agrária, com o objetivo de garantir moradia digna, acesso à terra, produção de alimento e fortalecimento da vida e do trabalho coletivo”, destacou Vagner.

Vagner mora há 34 anos na Agrovila 5. Ao todo, são cerca de 450 famílias assentadas, pelo menos 700 agregadas, resultando em quase 2,5 mil pessoas que vivem e trabalham na agricultura. “Representa uma oportunidade de mostrar que é possível produzir alimento de forma sustentável, preservando a cultura, gerando renda para as famílias rurais, mas principalmente, mostrar para a sociedade a produção de forma saudável sem a utilização de agrotóxicos”, afirmou.

Produção diversificada e programas públicos

No assentamento, são cultivados grãos como milho, trigo, soja e arroz. A produção também inclui hortaliças, legumes e criação de animais, diversificando a atividade agrícola das famílias. Parte dos alimentos é destinada a programas públicos, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), contribuindo para o abastecimento de instituições e comunidades da região.

“A produção é diversificada e muito forte dentro do assentamento. Comparando com a agricultura familiar de outras regiões, a do assentamento se destaca. A geração de emprego e renda aqui dentro é muito importante”, disse Vagner.

Os responsáveis pelo cultivo são as próprias famílias. Parte do trabalho é manual, mas algumas atividades contam com máquinas agrícolas. “A produção dos alimentos é, na maioria das vezes, primeiro para subsistência e depois para comercialização. Tem famílias que vão para o Ceagesp e Ceasa toda a semana em São Paulo. O uso da renda é definido por cada família”, explicou.

Impacto regional e importância da reforma agrária

O morador destaca que o assentamento é importante não só para as famílias, mas também para as pequenas cidades da região de Itapetininga. Quando o cultivo não ocorre como esperado, o resultado é sentido por outros comerciantes, devido à importância da agricultura familiar.

“Os países desenvolvidos passaram pela reforma agrária, menos o Brasil. O Plano Nacional da Reforma Agrária é muito lento, feito através de demandas e da ocupação de terras pelos movimentos sociais. Isso gera emprego e renda, é tudo o que uma sociedade quer”, analisou Vagner.

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Conforme a Itesp, as agrovilas contam com estruturas e serviços públicos vinculados aos municípios, responsáveis pelo atendimento nas áreas de saúde, educação e demais políticas públicas. O Assentamento Pirituba também conta com cooperativas organizadas e administradas pelos próprios produtores, fortalecendo a comercialização, a geração de renda e o desenvolvimento econômico da região.

“Os impactos do assentamento ultrapassam os limites da produção agrícola, contribuindo há quatro décadas para a dinamização do comércio local, a geração de empregos, o fortalecimento da economia regional e a promoção da agricultura familiar no sudoeste paulista”, concluiu a Itesp.